October 2nd, 2008

rosas

os dedos pela palavra

passo ao de leve os dedos pela palavra, sinto-lhe as nervuras, a tensão dos nós, as sílabas precipitadas. digo-lhe as letras, como se tentasse, calma e desesperadamente, reter-lhe a luz, a água fresca das manhãs.

tento erguer-me acima dos bichos, esquecer-me do que arde no fundo dos lençóis, na noite sem fios. mas, ao menos por enquanto, é inútil pensar no voo. agarram-se-me à pele com a interminável cadência das horas.

tarde ou cedo, não sei se regressas. não sei se me afasto da parede e, voltando-me, te vejo de novo aqui, entre os livros, ou se espero que o esquecimento te resgate como ervas selvagens crescendo entre ruínas.

não são as horas que desta vez te afastam, dir-se-ia um pequeno milagre, de mim. é a espada. são as garras, mais fortes que os meus dedos.

nomear-te ou não, entre o fogo e o pesadelo, há-de revelar com nitidez cruel e infalível o teu lugar. guardarei para sempre a ternura do teu cheiro. entretanto, vou passando ao de leve os dedos pela palavra, resisto a seguir o som que me chama, e penso que virão outros dias.
rosas

quinze

a minha avó fazia ontem anos, e eu tenho-me lembrado muito dela. chamo-lhe assim, a minha avó, porque foi a única que tive, a única conheci. e tendo feito já quinze anos que morreu, não está nem um dia mais distante ou mais longínqua. continua a estar aqui todos os dias, nas pequenas coisas, nas frases que se dizem sem pensar, nas dobras mais insignificantes do quotidiano.