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palavras
carmen
innersmile
O livro de Ruy Castro, Era No Tempo do Rei, para além do interesse histórico e literário que tem, é igualmente uma espantosa e muito divertida aventura de descoberta da língua, sobretudo graças a um vocabulário riquíssimo e verdadeiramente extraordinário.
Apesar do livro trazer notas do editor em rodapé, deu-me um certo gozo constatar que eram muito poucas as palavras que eu desconhecia em absoluto, que eu nunca tinha escutado ou lido. E outra coisa curiosa é o facto de eu associar grande parte dessas palavras a canções (nomeadamente do Chico, por aqui se confirma a riqueza poética e linguística das letras das suas canções), e a poemas que ouvi declamados, principalmente nos discos do João Villaret.
Fico com a ideia de que, de um modo geral, muitas dessas palavras caíram em desuso mesmo no Brasil, mas como é evidente é apenas uma impressão, já que o meu desconhecimento da língua falada no quotidiano brasileiro é imenso. Mas daquilo que conheço, dos livros mais recentes que tenho lido, do próprio brasileiro falado que nos chega cá, fico com essa ideia, de que Ruy Castro procurou um certo anacronismo linguístico.

Também não sei se esta ideia faz algum sentido, mas tenho um teste pessoal que normalmente me dá uma ideia do tipo e do nível de linguagem que é usado. Mas há textos (narrativos ou poéticos, ou mesmo simples letras de canções) que conseguimos ler sem estar a ouvir mentalmente o sotaque do Brasil. Lemo-los praticamente com o sotaque português. Outros, levam-nos irremediavelmente para o sotaque brasileiro, e parecem não fazer sentido, por vezes mesmo atropelam-nos, se os tentamos ler em português de Portugal. Tenho uma certa curiosidade em saber se um leitor brasileiro também tem esta experiência, de haver determinados livros que apenas se conseguem ler com o sotaque de lá, e outros que apenas fazem sentido se forem lidos com sotaque português.

Alguns exemplos dessas palavras saborosas que Ruy Castro utiliza no seu livro: mutreta, banguela, capeta (que também era nome de uma bebida, em Porto Seguro), rapadura, iaiá (acho que neste momento esta é a minha palavra preferida da língua portuguesa), frege, jururu, xucro, frajola (outra que eu adoro), pajé, estapear, trubufu, biruta, sinhá (linda!), xeretar, mirim, estilingue, farofice, bilontra, capadócio, suciante, bruaca, inzoneiro (esta é fabulosa), cafundó, e tantas tantas outras.