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o mundo de newman
rosas
innersmile
Não há outra maneira de o dizer sem ser através do cliché: o mundo está efectivamente mais pobre desde ontem. A conversar com amigos, ainda sob o efeito desconsolador da notícia, comentei que era a primeira vez que eu vivia num mundo sem Paul Newman.

A minha mais antiga recordação do actor, não é dele, mas do meu tio: eu tinha um tio que toda a gente dizia que era parecido com o Paul Newman. E era. Por isso a primeira recordação que tenho do Paul Newman é andar à procura do rosto do actor que era parecido com o meu tio.
Paul Newman era assim, uma lenda viva. A fama precedia-o. Antes de algum de nós ter visto algum filme dele, já sabia quem ele era: um dos maiores actores do mundo.

Talvez o primeiro filme que vi dele tenha sido um dos mais fracos, The Towering Inferno, um filme catástrofe, que eu vi num velho cinema piolho, num verão (de 77) que passei na Amadora. Ou talvez tenha sido Buffalo Bill e Os índios, do Robert Altman, que vi já em Coimbra. Ou, também de Altman, Quinteto. Amar o cinema no lugar dele, na sala escura, é ter visto O Veredicto no grande ecrã. Ou The Color of Money, do Scorsese. Quase todos os filmes que Newman fez até Road To Perdition, do Sam Mendes.

Mas é também ir à procura da cinematografia de Paul Newman e descobrir a quantidade imensa de filmes que vi com ele, a maior parte, alguns dos melhores, num tempo em que nem eu próprio tinha ainda nascido. Sim, muitos deles ainda não tinha nascido para a cinefilía, mas muitos outros ainda não tinha nascido mesmo, nascer tout court! Alguns que fazem parte daquele grupo de filmes que vemos e revemos constantemente: Sweet Bird of Youth, Cat on a Hot Thin Roof, The Hustler, Hud (que em português tinha o título para mim hipnótico de ‘o mais selvagem entre mil’), A Cortina Rasgada, do mestre Hitchcock, A Golpada, ou aquele que terá sido um dos seus maiores sucessos, Butch Cassidy and The Sundance Kid, que entre nós levou o título também mítico de Dois Homens e Um Destino (uma história que fui reencontrar num dos meus livros preferidos, o In Patagonia, do Bruce Chatwin). Tantos filmes, todos inesquecíveis. Inesquecíveis, em parte, em grande, em enormíssima parte, graças ao Paul Newman.

Nas décadas de quarenta e cinquenta, o cinema recebeu quatro actores belíssimos, que marcariam para sempre, pelo menos no cinema norte-americano, o estatuto do actor de cinema. James Dean, que ficou para sempre jovem porque trocou a vida pelo mito. Marlon Brando, que era realmente o mais belo animal do mundo (perdão Ava Gardner). Montgomery Clift, provavelmente o mais belo de todos, o próprio epítome da perfeição masculina. E Paul Newman, o mais humano de todos, a prova de que ser-se espantosamente belo e carismático é uma coisa que está ao alcance de qualquer ser humano. Paul Newman foi o único que conseguiu colar o mito e o homem quase sem costuras, sem falhas, sem máculas.

Por isso, por ser um actor tão especial, um actor que nos dava tanto prazer e tanto sentido à nossa aventura de cinéfilos e humanos, é que não há de facto outra maneira de o dizer: o mundo sem Newman é realmente um mundo mais pobre.