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o tempo do rei
carmen
innersmile


Já andava há uns tempos a perseguir o escritor Ruy Castro, biógrafo emérito, ensaísta de cultura popular e também ficcionista. A monumental biografia que escreveu sobre Carmen Miranda escapou-me miseravelmente por entre os dedos: depois de meses a fio pendurada nas estantes das livrarias, quando me decidi a perguntar por ela tinha sido devolvida ao armazém (e como não chega a encomenda, suponho que o armazém esteja ligado ao tanque das reciclagens). O volume que escreveu sobre a cidade do Rio de Janeiro, Carnaval de Fogo, publicado numa interessante colecção da Asa sobre cidades e escritores, deixou igualmente de se ver nos escaparates. É uma maldição os livros terem um tempo de vida útil tão curto, inversamente proporcional ao espaço que as livrarias precisam de ocupar com o copioso lixo das novidades.
Por isso, mal o vi deitei a mão a Era No Tempo do Rei, romance (abreviado) que Ruy Castro escreveu sobre a improvável amizade entre D. Pedro de Alcântara, príncipe herdeiro da coroa portuguesa, e Leonardo, príncipe regente das ruas mais mal-afamadas dos baixos do Rio de Janeiro, quando D. João VI desloca para aquela cidade a capital do reino para escapar ao jugo francês (dantes dizia-se que fugiu cobardemente, mas a história tem sido revista e aumentada no que a esse trecho diz respeito).

Li o livro em passo de corrida, pois ele presta-se a isso: leve, rápido, sedutor, divertido, sensual. Claro que o livro é sobretudo um pretexto para falar da cidade do Rio de Janeiro ‘no tempo do rei’ (tanto que não falta um índice das ruas com correspondência para a actualidade) e para construir uma ficção sobre as condições em que nasceu a ideia do Brasil enquanto país independente. Mas é um fabuloso pretexto, que se lê como se se vivesse o quotidiano das ruas, que consegue criar retratos bem vincados e cheios de personalidade, e que nos devolve os ambientes, os cheiros, a confusão, o barulho do quotidiano da cidade que estava a aprender a ser capital do império.

Só para dar um cheirinho do estilo, e porque é em si uma boa síntese das intenções do livro, aqui fica as suas palavras finais:

«Ninguém tomou Leonardo por príncipe. Mas Pedro estava a carácter, como estaria pela vida afora, em seu papel de azougue, xucro e irresistível, grosso e fino, puro e depravado, que nem o Brasil.»