September 16th, 2008

rosas

mouzinho



Enquanto fazia horas para o concerto da Madonna passei o fim-de-semana a ler. A terminar livros que já estavam começados, e a iniciar outros. Pelo meio, li num ápice uma edição recente, da Oficina do Livro, dedicado à figura que lhe dá título, Mouzinho de Albuquerque, da autoria de António Mascarenhas Gaivão.

O autor queixa-se no livro de que Portugal hoje em dia parece ter-se esquecido do grande herói nacional que foi Mouzinho, mas a verdade é que também não é com livros como este que melhor se dignifica e sobretudo divulga esse nome da nossa história. Apesar de o livro nunca se assumir como uma biografia (pelo contrário, assume ser o resultado de um trabalho feito no âmbito profissional do autor) sempre haveria um mínimo de investigação e de aprofundamento que está longe de ser cumprido. Mesmo para mim, que sou um leigo neste assunto e cujo conhecimento da vida de Mouzinho não vai além do corriqueiro, o livro não me trouxe, no plano biográfico, qualquer novidade, estando, neste aspecto, praticamente ao nível de um artigo na wikipedia! As campanhas de África, nomeadamente a que resultou na prisão de Gungunhana, são resolvidas em meia dúzia de páginas, se tanto, sem nenhum desenvolvimento informativo ou literário, que nos fizesse ter ao menos uma noção do que foi ter vivido esses momentos da história.

Não é à custa de repetir elogios que se engrandece uma figura, sobretudo quando esses elogios batem sempre na mesma tecla. E o autor, infelizmente, canaliza a maior parte dos seus recursos nesse sentido, afirmando, mas nunca o demonstrando do ponto de vista narrativo (e não estou a falar de provas, mas sim de literatura) o contraste entre a estatura moral e patriótica de Mouzinho e meio político do Portugal da época.

E no entanto, o próprio livro contém um exemplo do que poderia ter sido: nas primeiras páginas o autor reproduz o que foi o último dia de vida de Mouzinho, os seus gestos e os seus passos, com uma minúcia e um estilo discursivo que é capaz de nos trazer à imaginação o que terão sido exactamente esse derradeiros momentos da sua vida. Está certo que o faz, sobretudo, para dar consitência à sua tese de que Mouzinho não se terá suicidado, antes poderá ter sido vítima de um atentado, motivado essencialmente por razões políticas. Mas essas páginas são precisamente a prova de que se pode perfeitamente fazer tese sem comprometer o interesse biográfico e literário da obra.


Não costumo despender muitas energias a dizer mal, aqui, do que não gosto. Quando gosto de um livro, por exemplo, apetece-me escrever porque isso me ajuda a reflectir e a clarificar as ideias sobre ele. Mas neste caso senti-me um pouco defraudado pela pouca densidade da obra, e pela sua relativa falta de interesse.

Por razões até familiares, mas que têm sempre a ver com as minhas origens moçambicanas, sempre senti um certo fascínio pela figura de Mouzinho de Albuquerque. O episódio da prisão do Gungunhana foi daquelas coisas que estiveram no cerne da 'moçambiquinidade', quer antes quer depois da independência de Moçambique, pelas razões diametralmente opostas que se adivinham. Para quem nasceu em Moçambique, e tinha, como eu, as suas origens já bastante entranhadas naquela terra, a figura de Mouzinho tinha um certo estatuto mítico. Com efeito aprendi o seu nome não nos livros de história, mas no próprio facto de haver uma incontornável estátua equestre numa das principais praças de Lourenço Marques, e que constituía um dos mais famosos e populares ex-libris da cidade. Mas aprendi-o sobretudo na história e na admiração que desde sempre ouvi contar da minha bisavó Maria, a única que cheguei a conhecer, que foi à baixa saudar o Mouzinho, no início do ano de 1896, quando ele entrou na cidade trazendo aprisionado o Gungunhana.