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fora de portas
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Acho que já aqui referi de raspão o livro do Prof. Galopim de Carvalho, Fora de Portas, Memórias e Reflexões (ed. Âncora). O autor é um ilustre mestre de geologia que se tornou popular (enfim, tanto quanto um cientista é popular em Portugal) por ter aparecido associado à defesa intransigente dos achados arqueológicos das pegadas de dinossáurios. Como essa descoberta coincidiu, grosso modo, com a popularidade dos dinossáurios sobretudo entre os mais jovens, o professor, na sua qualidade de director do Museu Nacional de História Natural, aproveitou para cavalgar essa onda e revitalizou o referido museu com exposições sobre os monstros pré-históricos que, literalmente, pararam o trânsito na Rua da Escola Politécnica, em Lisboa.

Nunca fui grande entusiasta da referida bicharada (nem mesmo na trilogia realizada pelo meu amado Spielberg), mas chamou-me a atenção o referido volume de memórias, porque ainda vai sendo rara a publicação deste tipo de obras por parte das figuras eminentes do nosso tempo, e porque nutro sincera simpatia pela figura do professor. O volume está dividido em duas partes, uma primeira de índole mais pessoal, com memórias de infância, da juventude, da tropa e da carreira universitária do autor, e a segunda parte, cuja leitura estou ainda a iniciar, que, tanto quanto me apercebi, contitui assim uma espécie de memória institucional das causas científicas em que o autor esteve envolvido (como os referidos processos de protecção das pegadas jurássicas).

Um livro desta índole vive, como é óbvio, sobretudo das pequenas histórias, das anedotas pessoais, e dos comentários e opiniões que o autor entende dispender sobre diversos assuntos e até sobre personalidades com quem conviveu. É um livro que se lê bem, sem grande esforço, ao sabor do prazer e das histórias, e que nos traz, com humor, o mundo tal como ele tem sido vivido por um homem que dedicou toda a sua vida e as suas energias à ciência, ao seu ensino e à investigação.

Sendo da Faculdade de Ciências de Lisboa (suponho que da Universidade Clássica), Galopim de Carvalho refere-se muito esparsamente à congénere de Coimbra, e quase sempre para referir a boa colaboração com os colegas de cá. Mas há um capítulo em que Galopim de Carvalho se refere num tom crítico à Universidade de Coimbra. A propósito do enorme formalismo que rodeia as provas de doutoramento em Coimbra, e que as tornam desagradáveis, para não dizer mesmo violentas, Galopim conta que uma vez foi convidado para integrar o júri de umas provas de agregação em Coimbra, constituído ao todo por sete professores da casa e três de fora, incluindo ele próprio. Depois de descrever, com um certo arrepio, a frieza formal e desagradável que revestiu a prestação da prova, Galopim chega à parte da bolas pretas e brancas. Para quem não sabe, a avaliação do candidato é feita através da inserção destas bolas em urnas: brancas se se vota a favor da aprovação, pretas no caso de votar pela reprovação. Como o júri tinha reunido previamente à realização da prova para discutir o trabalho, não lhe tendo sido apontadas quaisquer críticas de monta, Galopim de Carvalho conta do choque que sofreu quando se procedeu à contagem da votação e se apurou um predomínio das bolas pretas, de tal forma que era claro que pelo menos seis dos professores de Coimbra tinham votado pela reprovação! Este episódio é, infelizmente, bem ilustrativo de um certo clima que se viveu, e suponho que ainda se vive, em certos departamentos das faculdades coimbrinhas, onde a inveja, a mesquinhez e a defesa dos interesses e dos poderes pessoais, matam à partida todos aqueles que não alinham no sistema, independentemente do seu valor e das suas capacidades.