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mamma mia!
rosas
innersmile
Mamma Mia! é um dos meus espectáculos musicais preferidos. Vi-o pela primeira vez ainda no teatro onde estreou, o Prince Edward, em Old Compton Street (of all the places), depois de várias tentativas para conseguir bilhete. E quando finalmente consegui arranjar bilhete, o espectáculo foi cancelado à hora do início por causa de um problema técnico qualquer. Felizmente deram-me um bilhete para o espectáculo do dia seguinte. Revi-o quando passou por Lisboa, no Pavilhão Atlântico. E é um dos meus musicais preferidos por causa da sua simplicidade: a história é apenas um fio de narração que liga umas às outras aquilo que o show tem de melhor e mais empolgante – as canções dos Abba.
Fui ver o filme feito com base no musical, e que mantém no essencial a mesma equipa técnica e criativa (com excepção do cast) que produziu o musical, e tenho de dizer que durante a maior parte do tempo achei o filme um bocado palerma. A necessidade de dar alguma espessura dramática e narrativa faz o filme cair naquilo que tem de menos consequente, ou seja a história da rapariga, da sua mãe e dos seus três pais putativos (como lhe chama a Time Out londrina ‘it’s Paternity: The Musical’). Houve mesmo dois ou três momentos em que o filme foi mesmo tão parvinho que se tornava confrangedor. Melhorou bastante na segunda parte, sobretudo porque as canções se passaram a encadear quase umas nas outras, e o filme de algum modo conseguiu transmitir aquela atmosfera efusiva que tinha o espectáculo musical.
E pronto, ficaríamos por aqui se não houvesse a Meryl Streep. Muito bem secundada pelas suas Dynamos, as fantásticas Julie Walters e Christine Baranski, a Meryl Streep consegue aquilo que pareceria impossível, ou seja interpretar com gozo e uma entrega total um papel praticamente inexistente, sem qualquer espessura dramática e sem interesse nenhum. Claro que vê-se ali muita técnica, muito recurso, muito truque, muita tarimba. Mas é sempre um assombro ver como esta actriz consegue vestir as suas personagens, dar-lhes vida a partir de dentro, torná-las tão incrivelmente verdadeiras e verosímeis. De resto, pagaria de bom grado quanto me pedissem pelo preço do bilhete só pela sua interpretação da canção The Winner Takes it All, que nunca mais será a mesma depois de ter sido interpretada, mais do que cantada, pelo génio da Meryl Streep.
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fácil
rosas
innersmile
Não consegui comprar nenhum livro durante as férias em Porto Seguro (não vi nenhuma livraria, e livros à venda só no quiosque do aeroporto, mas nenhum me despertou a atenção), mas comprei duas revistas. A Aimé-Primus Inter Pares, o terceiro número de uma revista dedicada ao público LGBT (no Brasil diz-se GLS, mas o que quer dizer o S?), e a edição brasileira da famosa revista Rolling Stone.

Curiosamente, e muito significativamente, ambas têm um ponto em comum: o escritor best seller, estrela pop da literatura e membro da academia, Paulo Coelho. A propósito da edição de O Mago, uma biografia que lhe é dedicada, a Rolling Stone dá-lhe a capa e uma entrevista feita em França, onde Coelho reside parte do ano. A Aimé traz uma entrevista muito interessante com Fernando Morais, o próprio autor da biografia. Mais do que o assunto Coelho, o que a entrevista revela é uma grande personalidade, a do autor da biografia, homem dos jornais, escritor e conhecedor do mundo. É curioso como no Brasil ainda subsiste uma geração de antigos jornalistas, homens com muitos quilómetros de vida e de experiência, que se dedicam a escrever a crónica do seu tempo e do seu lugar. Em Portugal essa classe dissipou-se quase completamente, em grande parte devido ao facto de ter sido absorvida pela classe política, integrando a corte de assessores e consultores dos políticos. É pena, porque estes tipos de facto ensinam-nos a ler a vida e o tempo que vivemos.

Quanto à biografia de Coelho, pelos vistos, e a avaliar pelo destaque que lhe é dado nas peças de ambas as publicações, a grande revelação é facto de o Paulo Coelho ter tido uma relação homossexual no passado. Para mim a maior surpresa foi ter descoberto que o Paulo Coelho formou uma dupla criativa com o grande Raul Seixas. Va savoir…, como dizem os franceses.

Já há uns dias que andava para alinhavar estas notas sobre as revistas, e hoje estava a ler a entrevista que a revista Ler fez a Eduardo Lourenço, e eis senão o Paulo Coelho entra na conversa. Passo a citar:

«O Paulo Coelho começa por ser uma pessoa que um sujeito que se preza não lê. Não quer saber do Paulo Coelho para nada. Mas o fenómeno Paulo Coelho é verdadeiramente espantoso. É uma reciclagem de coisas simples.»

E mais à frente:

«É uma literatura de um optimismo beato, em todos os sentidos da palavra. Ele descobriu que havia aqui uma carência. Com essa ingenuidade – ou falsa ingenuidade – da visão do Paulo Coelho as pessoas encontram-se nessa espécie de paraíso portátil e de receitas de salvação, quando as receitas de salvação das grandes religiões capotaram. Ele oferece-lhes um sucedâneo da essência de todas essas coisas, mas em versão light.»

Sempre senti uma enorme embirração em relação ao Paulo Coelho. Não por ele ser light ou fácil, mas precisamente porque acho que os seus livros são uma vigarice, tal como as seitas que pulularam por aí no final do milénio passado. Receitas fáceis e inúteis (quando não mesmo prejudiciais) para quem não consegue conviver com o vazio dos tempos.

Mas o Eduardo Lourenço, que sabe destas coisas infinitamente mais do que eu, dá-me logo a seguir uma lição de humildade, ao dizer: «Mas em si essa literatura não me merece desprezo». Caramba, isto de um tipo que é considerado o grande pensador português do nosso tempo, e que alicerçou o fundamental da sua obra na leitura dos grandes escritores portugueses, sobretudo de Pessoa. Isso mesmo. O tipo que nos descodificou o Pessoa, e que faz um diagnóstico tão lapidar do fenómeno Paulo Coelho, a afirmar que esse tipo de literatura fácil não lhe merece desprezo.
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