September 3rd, 2008

rosas

tu-tuuuu-tu

Tu-tuuuu-tu

Trabalho numa sala de escritório que fica no terceiro piso (o penúltimo, já que há ainda um piso técnico) de um edifício implantado no meio de um complexo de prédios baixos, numa das zonas de maior centralidade da cidade, acentuadamente urbana. A janela do gabinete dá para uma zona de trânsito pedestre e automóvel, encafuada entre edifícios, com um pequeno pátio que funciona como estacionamento de carrinhas com motores a diesel. Quando levanto os olhos para a janela tudo o que vejo é a parede de um branco cinza do prédio em frente, cortada por janelas quadrangulares, de vidro, e rasgada por uma platibanda de cimento, monótona e suja. Passo a maior parte do tempo com a janela aberta, para o gabinete ficar arejado, e só a fecho quando o barulho de lá de fora, dos motores das carrinhas, da vozearia, e das ocasionais máquinas de cortar relva quando estão a aparar os canteiros magricelas, se torna insuportável e não me deixa sequer pensar, quanto mais concenterar no trabalho ou ouvir o que me dizem numa conversa telefónica ou numa reunião.

Hoje, e ao longo de toda a manhã, desde que aqui cheguei pouco depois das oito, por entre o rumor indistinto que me chega pela janela aberta, tenho ouvido, vez em quando, esse som: tu-tuuuu-tu tu-tuuuu-tu tu-tuuuu-tu.
Não sei se é esta a onomatopeia correcta para o turturejar das rolas: tu-tuuuu-tu. É diferente do arrulhar das pombas, que é mais um crru-crruuuu-crru. Acho que este tu-tuuuu-tu é mesmo de uma rola. Já espreitei à janela, mas não vi nada, ainda pensei que pudesse estar alguma pousada na cobertura da porta do edifício, e que fica quase por baixo da minha janela. Espreitei para cima, mas não há nada mais do que a parede lisa do tal piso técnico e o tubo de uma conduta de água. Oiço o som mais distintamente quando estou sentado à secretária, pois quando me abeiro da janela o ruído do pátio tapa por completo o outro, mais frágil e subtil. Também já me pus a olhar para o tecto a ponderar se seria possível o som chegar por uma conduta de ar, mas o único respirador que vejo é o do ar condicionado, e parece-me pouco próvável.
Também já pensei se terei uma rola dentro da cabeça! Francamente parece-me muito pouco plausível, mas a verdade é que desde que comecei a escrever este texto nunca mais ouvi o tu-tuuuu-tu.
Olha, assim como assim vou almoçar.