August 21st, 2008

rosas

derek jarman

Não me lembro em que dia foi, mas lembro-me do dia exacto em que ouvi pela primeira vez falar no Derek Jarman. Estava em Londres, ainda com a minha mãe, portanto deve ter sido em 84 ou em 85, e a Neta mostrou-nos uma cassete de vhs que tinha gravado da televisão (do Channel Four) com um filme estranhíssimo e completamente gay: o Sebastiane, o filme que Jarman rodou, falado em latim, sobre a vida e a morte de São Sebastião. Era a primeira vez que eu via imagens explicitas de erotismo homossexual, de homens nus, em amplexos sexuais ou simplesmente em exposição, de pénis erectos, de encenações de orgias. Tudo isto com uma caução artística, que o filme estava o mais longe possível da exibição pornográfica (não que faça grande diferença: até essa altura, e tanto quanto me lembro, nunca tinha visto um filme pornográfico, e já tinha 22 ou 23 anos).
A partir daí nunca mais perdi o Derek Jarman de vista. Não me recordo de sequer ouvir falar no nome dele cá em Portugal, mas sempre que ia a Londres era um dos nomes a que dava muita atenção. A única revista gay que me lembro de comprar na altura era a Gay Times, e há-de ter sido por ela que eu fui aprendendo alguma coisa acerca de Jarman: dos seus filmes e da sua importância artística, do seu activismo gay, da sua condição de seropositivo. Por meados dos anos 90, na sequência da morte de Jarman, comprei dois livros do Derek Jarman, Modern Nature e At Your Own Risk, mais assumidamente diarístico o primeiro, mais memorialista o segundo.
Numa altura que não consigo precisar vi no Gil Vicente mais um filme do Derek Jarman, Edward II, que me lembre o único filme dele que vi numa sala de cinema em Portugal. Tenho ideia de terem passado alguns na televisão, inclusivamente o Sebastiane, pelo menos tenho ideia de o ter gravado por aí algures numa cassete de vídeo, e há alguns filmes dele editados em dvd, pelo menos o Wittgenstein e o Caravaggio, que se encontram, salvo erro, à venda na Fnac.
Também na Fnac, no escaparate das importações, encontrei um dos filmes mais especiais do Derek Jarman, The Angelic Conversation. Mesmo nos seus filmes mais convencionais o Jarman nunca foi um cineasta narrativo, mas é nos seus filmes mais experimentais, realizados sobretudo em Super 8, que mais se evidenciam, acho eu, as suas características, e as suas qualidades, de cineasta, precisamente o que acontece neste filme de 1985. Uma obra fragmentada, de carácter muito plástico, pictórico, filmado em velocidade lenta, com acentuada temática gay (ou queer, se calhar é mais exacto), nunca recusando, mas também parecendo não procurar explicita ou deliberadamente, um tom homo-erótico. O dvd, edição do BFI, traz extras preciosos, nomeadamente um entrevista com o realizador, e testemunhos de alguns dos seus principais colaboradores.
Soube-me muito bem este regresso ao Derek Jarman, que foi um nome muito importante na minha formação pessoal, não tanto por questões identitárias, mas sobretudo de construção de um certo referencial de cultura gay e queer. E é curioso porque acho que andava com saudades de regressar ao universo de Jarman: já aqui há tempos, quando andei a construir a minha biblioteca gay no site librarything.com, tinha relido passagens dos seus livros. Agora fiquei com muita vontade de ver e rever os seus filmes.
Se alguém estiver interessado, o youtube tem bastante material sobre o Derek Jarman: entrevistas, clips de filmes (nomeadamente do Sebastiane) e alguns dos clips que faz para bandas como os Smiths ou os Pet Shop Boys. Basta pôr o nome do realizador na opção de busca para aparecerem coisas interessantes.