August 16th, 2008

rosas

tropa de elite, dorival

Pode parecer redundante face ao próprio conteúdo do filme, mas a primeira nota que se pode retirar a propósito de Tropa de Elite, o filme que José Padilha fez sobre o Bope, o batalhão da polícia militar brasileira encarregue das missões mais duras, é a de que a realidade urbana das favelas é de facto um fenómeno de outra dimensão, um tumor social tão complexo que, pelo menos a nós europeus, não pode deixar de causar perplexidade e perturbação.
E o modo como o filme olha essa realidade, um pouco simplista na sua visão maniqueísta de maus e bons, é também o melhor que o filme tem, talvez porque é aquilo que está na sua origem, a vontade de fazer um documentário sobre as histórias reais dos elementos do referido batalhão. Porque independentemente da visão maniqueísta, o filme aborda algumas questões difíceis. A responsabilidade da classe média, nomeadamente da juventude universitária, que estimula o tráfico através do consumo hedonista é uma delas. E mais do que justificar a utilização da violência e da tortura por parte da polícia, o que me parece que o filme é justificar o recurso a essa violência da perspectiva da polícia. Não considerá-la justificada, mas antes talvez inevitável, no contexto de guerra aberta que se trava nas favelas do Rio. Apesar da linha ser ténue e subtil, parece-me que mais do que uma visão fascizante da sociedade o que o filme releva é sobretudo o ónus que recai sobre as forças da ordem do fracasso social e político que é a relação da pobreza urbana com o crime ligado ao tráfico de droga.
De resto o filme pareceu-me frágil e desequilibrado do ponto de vista narrativo, talvez por querer cruzar demasiadas linhas. Ou então foi apenas traído por essa vocação documentarista inicial e perdeu alguma coerência na transposição para o dispositivo dramático.
Achei a montagem excelente, e gostei muito do modo como o filme consegue sempre segurar a encenação da violência, nomeadamente dos tiroteios, imprimindo tensão mas nunca se deixando resvalar para o campo do filme de acção.


E em dia de falar de cinema brasileiro, a notícia triste vem do lado da música popular: morreu Dorival Caymmi. Mas mais do que uma lenda dessa arte absolutamente genial que é música popular brasileira, Caymmi fazia parte do seu código genético, e do nosso, de quem admira e não pode viver sem MPB. Um daqueles casos raríssimos em que o homem atingiu verdadeiramente a imortalidade em vida. Porquê? Porque Dorival, compositor baiano e do mundo, escreveu pelo menos uma dezena de canções que conseguem aquela coisa notável que é desligarem-se da sua autoria, tornarem-se canções que conhecemos, que conhecemos cá dentro, dentro de nós, mas de maneira tão intrínseca que elas são mais nossas do que algum dia as escreveu. É de facto realmente assim: se um dia se perguntarem quem foi que escreveu uma canção brasileira que sempre conhecemos mas da qual ignoramos a autoria, é enorme a probabilidade de ter sido escrita por Dorival Caymmi.