August 15th, 2008

rosas

o peso dos números


Em Fevereiro de 2006 o jornal The Times, de Londres, publicou um interessante artigo sobre um livro que estava prestes a ser publicado, The Weight of Numbers. O artigo descrevia as vicissitudes da escrita e da edição do livro como se se tratasse de um jogo de snakes and ladders, o popular jogo da glória, com os avanços e retrocessos, longos e curtos, típicos desse jogo de tabuleiro tão popular (o artigo está na edição on line do jornal e pode ser encontrado neste link)
Comprei o livro (em edição nacional da Asa, com o título O Peso dos Números), da autoria de Simon Ings, sem informação prévia nenhuma, apesar de ter uma vaguíssima ideia de já ter lido alguma coisa sobre ele. E comprei-o basicamente porque as folheá-lo reparei que tinha algumas referências a Moçambique.
Vou a pouco mais de meio das mais de quatrocentas páginas e está a ser um dos livros mais complexos que li em muito tempo. No artigo do Times que referi diz-se que o que levou Ings, um jornalista da área da ciência, a escrevê-lo foi ter-lhe surgido como tema a possibilidade de todas as coisas importantes terem a ver não com a ideologia ou com a ética ou com a moral, mas apenas com o puro e simples peso determinante dos números. É composto por uma teia de narrativas, cujas interligações intuímos mais do que conseguimos estabelecer com clareza, e que focam acontecimentos e factos decisivos na história do mundo do século XX. Tudo cabe neste livro: matemática, sociedades secretas dedicadas à filosofia, o blitz londrino na II Guerra, o comunismo, o wrestling mexicano, a guerra colonial portuguesa, a anorexia, a utilização de choques eléctricos pela psiquiatria, o programa de exploração espacial da NASA, os programas de desminagem, são apenas algumas. As personagens são muitas, algumas parecem mais centrais do que outras, há as que aparecem e desaparecem em poucas páginas e as que estão sempre a reaparecer. Há acontecimentos históricos, outros ficcionais, e ainda outros que não sendo rigorosamente históricos recriam episódios que efectivamente aconteceram. Há dois acontecimentos que o livro interliga, por acontecerem ao mesmo tempo, e que parecem constituir eixos à volta dos quais se vão constituindo as restantes narrativas: em 20 de Julho de 1969 o homem pisa pela primeira vez solo lunar, e ao mesmo tempo o líder da Frelimo, o partido que lidera a guerra de libertação colonial em Moçambique, é assassinado através de uma bomba montada num livro (inspirado no assassinato de Eduardo Mondlane, que de facto aconteceu em 69, mas em 3 de Fevereiro).
O livro é de uma leitura quase compulsiva, porque está muito bem escrito, e o autor consegue criar constantes focos de interesse. Apesar de na maior parte do tempo estarmos completamente perdidos, sem saber o que está a acontecer ou para onde é que o livro nos leva. Aliás como disse já vou em pouco mais de metade e para falar com franqueza ainda não percebi o sentido daquilo tudo, se é que tem de facto um sentido.