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os jogos
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innersmile
Adorei a cerimónia de abertura dos jogos olímpicos de Pequim. Acho que nunca tinha visto nada assim tão deslumbrante e fabuloso, o casamento perfeito entre a mais avançada tecnologia e a simplicidade das tradições mais elementares. Num enorme tapete digital, uma folha de papel estendida e um grupo de bailarinos fazendo desenhos ao sabor dos passos de dança. Uma lanterna de papel em forma de globo percorrido por pessoas a correr em desafio às leis da gravidade e à nossa capacidade de compreensão.

Podemos apreciar estes jogos ao arrepio das preocupações, mormente humanitárias, que a política chinesa desencadeia? No seu blog, a Jasmim faz um eloquente e inquietante comentário a esta questão, pondo, sem grandes comentários, um clip com imagens da cerimónia de ontem em Pequim e outro da dos jogos de Berlim, em 1936.

Há uma longa tradição de boicotes ao longo da história das olimpíadas modernas. Em 1976, em Montreal, a própria China iniciou uma série de boicotes ao jogos protestando contra a aceitação por parte do comité olímpico de Taiwan, com a designação de República da China, e só regressaria aos jogos em 84. Em 1980 os jogos de Moscovo foram boicotados por um enorme grupo de países ocidentais em protesto contra a invasão soviética do Afeganistão (Portugal foi um dos países que participou no boicote, apesar de ter havido um grupo de atletas que o furou e se deslocou aos jogos). Em retaliação, os jogos de 1984, em Los Angeles, forma boicotados pela URSS e demais países do antigo bloco de leste. A África do Sul, no tempo do apartheid, estava impedida de participar nos jogos (e em todas as outras competições desportivas internacionais).

A questão é: se há assim tanta preocupação com a China, porque é que os jogos de Pequim não foram boicotados? Claro, porque ao contrário do que acontecia há vinte ou trinta anos, o capitalismo fala mais alto do que a ideologia. Aliás, já nem há questões ideológicas a dividir os países, China inclusive. Os jogos de Pequim representam uma oportunidade de negócio, aliás muitas, para se tomarem medidas efectivas de penalização da China. Mas como temos de limpar a consciência, fazemos todos, Bush e Sarkozy incluídos, profissões de fé acerca da China, dos atropelos aos direitos humanos, e da sua política expansionista em relação, por exemplo, ao Tibete e, hélas, a Taiwan!

Isto para já não relembrar que há trinta anos éramos todos (enfim, generalizo) maoistas, numa época em que a China era incomparavelmente mais brutal para com os seus cidadãos do que, apesar de tudo, é hoje. Francamente, acho que isto tudo é uma enorme hipocrisia. Acho que nós precisamos de balões de oxigénio politicamente correcto para podermos dormir de consciência tranquila e fazermos de conta de que os males do mundo também não são responsabilidade nossa, de cada um de nós. É sempre mais fácil arranjar um culpado oficial e o mau da fita de serviço do momento é a China.

Apesar de não me considera propriamente um sinófilo, tenho um enorme fascínio pela China (não conta, claro, pois sou fascinado por todo e qualquer rincão do mundo), enquanto cultura mas também pelo que tem sido a sua evolução nas últimas décadas. A China conseguiu, ou está em vias de, transformar a sua sociedade e a sua economia sem cair nos atropelos e nas contradições em que caiu, por exemplo, a Rússia. E sinceramente acho que o que mais incómodos causa aos ocidentais não são os atropelos aos direitos humanos na China, mas sobretudo a perspectiva de a China se vir a tornar, num prazo mais curto do que aquele que prevíamos, ou que temiamos, na potência dominante da economia mundial e, por isso, do mundo.

Faço tenção de ver os jogos, disfrutá-los e não vou deixar a minha consciência atrapalhar esse meu prazer. Nem por um momento me esqueço dos mortos e das vítimas dos regimes políticos, mas já cá ando há tantos anos que aprendi a conviver com esse lado mais sujo e desagradável desta coisa de ser cidadão do tempo que me calhou em sorte viver. Não preciso de mostrar as mãos limpas a ninguém. Isto é cinismo? Olha, se for temos pena.
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