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trinta anos
rosas
innersmile
TRINTA ANOS

Era Agosto e o chão fervia
no calcário incendiado dos passeios.
Nós descíamos à Praça, convocados
às esplanadas e aos cafés.
A revolução mansamente
adormecia em seu estertor,
e a cidade, pela primeira vez,
ausentava-se para férias.

Era Agosto, e de Espanha nem
bom vento nem bom casamento,
mas era cá dentro que as fronteiras
se fechavam, e aprendíamos a só contar
com o que tínhamos,
juventude sem sono
à espera da madrugada.

Era Agosto e o chão morria.
Despedia-se o poeta, em palavras,
e nós alheios a essa ausência.
Chovia, para lá do Outono.
Nas salas e nos sótãos
esperavam-nos os últimos cartuchos
do futuro. Sorrimos, hoje, desses
retratos a sépia, recortes de jornais.
E já nem temos saudades de nós.
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888
rosas
innersmile
08-08-08
Este princípio de século dá-nos a oportunidade de vivermos, uma vez por ano, esta coisa um pouco mágica, das datas redondas. Não me lembro da do ano passado, mas lembro-me perfeitamente da de há dois anos, que registei em fotografia (e pus aqui no innersmile, se não estou em erro). Mas hoje, apesar dos bons augúrios que levaram a China a escolher este dia para abertura dos Jogos Olímpicos (cuja cerimónia vou perder, por estar a trabalhar, eu que gosto tanto de assistir a estas cerimónias), o dia está-me a soar um pouco estranho.

Ontem à noite, já não sei porquê, liguei o televisor quando cheguei a casa, e deixei-o sem som, enquanto ia dar uma voltinha pela net. Por volta das onze, decidi ir para a cama ler e fiz um zapping pelos canais do costume antes de desligar. Na Sic Notícias estavam a transmitir imagens de uma mulher, de calças brancas e t-shirt escura, de mãos algemadas e com uma pistola encostada ao pescoço. Não fazia ideia do que estava a acontecer, mas percebi que afinal tinha havido uma tentativa de assalto a um banco em Campolide, às três da tarde, e que, oito horas depois, os assaltantes ainda estavam barricados dentro das instalações do banco, juntamente com dois reféns. Passado pouco tempo apareceu no plano da imagem, ou seja, na porta do banco, o outro refém, igualmente algemado, seguido por um dos assaltantes, que vestia calças de ganga, ténis e luvas, e que lhe encostava uma pistola à nuca. A imagem era captada a muita distância, apesar do zoom, e por isso viam-se muitos polícias, nomeadamente dos GOE. Passado um bocado, quando parecia não haver grande coisa a acontecer, ouviram-se uns tiros e viu-se a senhora a fugir e os polícias a entrarem.
Fez-me tudo muita impressão. Achei perturbante ver as pessoas ali com as pistolas apontadas à cabeça. A nossa maneira de lidar com a realidade (quer dizer, a minha, pelo menos) passa muito por eu ser capaz de representar as situações para reflectir sobre elas, e não me consigo imaginar a viver uma situação daquelas, como é que se lida com o passar das horas, com o medo, o que é que nos passa pela cabeça. Também me perturbou saber que aqueles tiros que nós ouvimos em directo mataram um dos sequestradores e feriram gravemente o outro. Ou seja quando ouvimos o barulho e vimos a senhora a correr, isso significa que o sequestrador que a estava a segurar tinha acabado de ser atingido. Parece-me mesmo um bocado obsceno esta coisa de a morte de uma pessoa ser testemunhada pelas câmaras de televisão. Há uma foto, creio que no site do diário de notícias, onde parece que se vê ainda o esboço de alguém que acabou de largar a senhora. Um fantasma.
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