August 6th, 2008

rosas

mudanças

Passei o fim de semana passado basicamente a servir de ama-seca à C. que é uma das pessoas de quem eu mais gosto no mundo. A C. foi para o estrangeiro fazer um estágio de alguns meses, na madrugada de segunda-feira, e por uma daquelas leis que tentam explicar o acaso (tipo lei de murphy ou whatever), todas as pessoas que a poderiam apoiar nos preparativos e a suportar a ansiedade das longas horas da véspera, estavam ausentes, pelo que só eu é que estava mais disponível.
Fomos ao cinema, fomos jantar fora (adorei o restaurante japonês, onde nunca tinha ido), passeámos, tomámos cafés, discutimos aturadamente o que é que ela devia levar (opus-me, sem sucesso, ao mixer para fazer sopas, que na minha opinião deveria ser trocado pelas sapatilhas), e ainda como é que ela havia de levar lá as amostras do trabalho dela, que além de terem de ir acomodadas em frio, tinham uma aparência inquietantemente parecida com saquinhos de droga para tráfico. Já quase no fim de Domingo fui levá-la a Aveiro para apanhar uma boleia para o aeroporto.

Partilhar com ela estes momentos trouxe-me muito à lembrança uma experiência similar que eu tive, há precisamente dez anos, quando fui para os Estados Unidos fazer um estágio. Aquela mistura certa de ansiedade e apreensão dos dias prévios à partida e o fervilhar aéreo dos primeiros dias à chegada podem-se tornar uma espécie de droga. Como eu nunca fiz Erasmus (ainda não tinha sido inventado no meu tempo de faculdade) esse estágio foi a primeira experiência de estar no estrangeiro sem ser propriamente em férias (ou, no meu caso, por razões de saúde, como já tinha acontecido). Senti uma vontade imensa de repetir a experiência, mas assim como nunca me passou pela cabeça a possibilidade de fazer um estágio remunerado numa das organizações americanas mais conhecidas à escala mundial, também não acredito nada que a sorte me saia uma segunda vez. Mas pronto, não me posso queixar, já tive a minha dose. Mas que gostava de repetir, lá isso...

Ontem à noite estive a reler o diário que escrevi nesses dias da América, entre Abril e Junho de 1998. Há muito tempo que não o relia, aliás acho que nunca o tinha feito por completo, de uma ponta à outra. É um diário sui generis, que tem todos os dias, a abrir, um registo das despesas do dia e, mensalmente, o total de gastos do período. Acho que devia estar a controlar com rigor as minhas despesas, para tomar essas notas. Como acontace quase sempre o registo começa muito minucioso e termina já quase em estilo telegráfico. Ao início muitas referências ao estágio e às respectivas actividades, que para o fim desaparecem quase inteiramente. Em compensação vão surgindo cada vez mais referências àquilo que eu estava a sentir, reflexões sobre a minha maneira de ser, e como é que eu estava a reagir ao facto de estar, pela primeira vez, sozinho e num meio relativamente estranho. Sem ponta de presunção, por vezes surpreendo-me quando leio coisas que escrevi há muito tempo e percebo a minha capacidade de me analisar e me pôr em causa.

Uma das coisas interessantes desse diário é nunca aparecer uma referência explícita à homossexualidade. O que é mais espantoso pois muitas das reflexões nele expressas têm a ver com a visibilidade dos homossexuais na cidade onde eu estava (os bares, os lugares de encontro, os olhares e os reconhecimentos) e com o facto de, apesar das oportunidades, eu nunca ter dado um passo para contactar ou conhecer outras pessoas. Ou seja, há apenas dez anos atrás, e apesar de eu não ter qualquer espécie de dúvida acerca da minha orientação sexual, ainda estava tão dominado pelo secretismo da coisa que nem para um diário que nunca seria (e nunca foi) lido por mais ninguém eu me atrevia a nomeá-la.
Outro aspecto curioso prende-se com a mudança de tom ao longo do diário em relação à América e aos americanos. Muito crítico ao início, e completamente fascinado no fim, sem vontade nenhuma de me vir embora, já cheio de saudades sobretudo da própria experiência, da paisagem, do olhar. A última entrada do diária foi escrita no aeroporto de Amesterdão, quando estava a fazer escala, à espera do voo para Lisboa. É um balanço engraçado da situação e se tiver paciência ainda um destes dias o copio para aqui.

Aliás, desde há muito tempo que me tem passado pela cabeça a possibilidade de transcrever esse diário para aqui, mas ontem, ao relê-lo, achei que isso não faz grande sentido, salvo uns dois ou três trechos. Mas a propósito de balanço, e vista daqui, desta distância de dez anos, confirmo que essa experiência americana foi das coisas mais importantes na minha vida. Verdadeiramente transformadora. A todos os níveis, e até essa questão da homossexualidade mudou depois disso. A experiência americana e a internet mudaram de facto a minha vida ou pelo menos mudaram-me a mim (como, poucos anos mais tarde, eu mudei depois de eu ter regressado pela primeira vez a Moçambique). Por vezes tenho pena que isso tenha acontecido tão tarde na minha vida, quando os meus trinta anos estavam quase no fim e já me estava a aproximar dos quarenta. Mas ainda que não seja um daqueles casos de 'mais vale tarde do que nunca', ainda bem que mudou. Pensando nisso agora, acho que estes últimos dez anos da minha vida têm sido muito interessantes. Ainda que nem sempre eu acredite nisso.