August 4th, 2008

rosas

fio solto


Fio Solto é o segundo livro que leio de Dennis Cooper, depois de purosexo.com (Sluts). Vá lá, desta vez a editora teve mais bom senso no título que adoptou para a tradução portuguesa da obra.
Cooper não é um escritor vulgar, e isso confirma-se com este livro, mesmo se não houvesse mais informação. É diferente nos recursos que utiliza, no estilo, no escopo das suas obras, e evidentemente nos temas. São temas difíceis, perigosos, que procuram a margem mais radical, a margem da margem. Já era assim em The Sluts, e volta a ser neste My Loose Thread, que é o título original.
Em termos breves, o livro segue os pensamentos e as acções de um adolescente que se encontra em pleno processo de crise identitária, nomeadamente quanto à sua orientação sexual, e mergulhado em profunda confusão afectiva, emocional e até moral. O resultado só pode ser, como está visto, desastroso. Uma das preocupações que interfere no modo como o narrador e os restantes protagonistas processam o real, prende-se com os conhecidos acontecimentos do Liceu de Colombine, e uma das matérias que interessa ao autor é sem dúvida a reflexão acerca dos factores que fazem os adolescentes mergulhar em espirais interiores de desregramento e violência que desembocam em catástrofes como as verificadas nesse e noutros estabelecimentos de ensino na América.
Neste aspecto o livro evocou-me muito o filme que Gus Van Sant fez sobre o mesmo tema, Elephant. Aliás, não consegui evitar recorrer à memória das belas e intensas mas altamente perturbadoras imagens do filme de Sant, para construir o imaginário narrativo do livro de Cooper.
Do ponto de vista formal, o livro, que não é muito fácil, organiza-se em trechos breves, sempre narrados do ponto de vista de Larry, o protagonista, a princípio bastante dispersos, mas que vão ganhando densidade e até coerência narrativa à medida que a crise parece mais eminente.

A editora Bico de Pena prossegue, com esta segunda obra de Dennis Cooper que edita, a publicar obras cujas temáticas apelam a sensibilidades mais específicas, nomeadamente na colecção Pena de Pavão, com livros de temas ligados à homossexualidade. Apesar de eu achar que haveria autores mais prioritários, suponho que haja ligações a determinados catálogos que justificam este plano de edição. Seja como for, através dos livros desta editora tenho conhecido novos autores, como Cooper, o espanhol Eduardo Mendicutti ou o português Pedro Gorski.
Entretanto, numa outra colecção a Bico de Pena acaba de publicar mais um livro de Augusten Burroughs (é o segundo que edita, depois de Correndo com Tesouras), A Seco, uma memória amarga e divertida, servida por um sentido de humor negríssimo, dos anos de dependência alcoólica do autor e da sua esforçada desintoxicação. Sou suspeito, porque gosto muito da escrita do Augusten, e este Dry foi talvez o meu livro preferido dele, mas, for what is worth, recomendo vivamente esta leitura.
rosas

no céu de agosto

Há coisa de vinte minutos, meia hora, ia a sair de casa e vi uma luz fixa, mortiça como uma lâmpada de vinte watts num vasto e desolado armazém, a cruzar o céu, direcção de sudoeste para nordeste, a uma velocidade constante e ao que me pareceu baixa altitude. Seria o mês de Agosto?

A edição de sexta-feira passada do Ípsilon, suplemento de arte e cultura do jornal Público, organizou um destacável com sugestões de discos e livros para os dias de férias de Verão. Nas páginas centrais, uma crónica da jornalista Alexandra Lucas Coelho, a propósito dos livros que nunca, ou ainda não lemos, invoca grandes nomes que fizeram história nos jornais portugueses nos anos oitenta: Fernando Assis Pacheco, Ernesto Sampaio, Torcato Sepúlveda, Eduardo Prado Coelho, Clara Ferreira Alves, António Mega Ferreira, Clara Pinto Correia, Miguel Esteves Cardoso, José Amaro Dionísio, Fátima Maldonado, Maria Regina Louro, Tereza Coelho, Eduardo Lourenço. Nomes que puseram a cultura na imprensa portuguesa e fizeram, ou ajudaram a fazer, nela um jornalismo de qualidade. Foram esses nomes, alguns deles, que me ensinaram a ler, e com os quais aprendi a gostar de jornais, de livros.
Uma época de ouro da imprensa, que torna ainda mais miserável, por comparação, o jornalismo que hoje se pratica nos jornais. A essa notável, e carinhosamente saudosa, galeria de nomes, eu acrescentaria um dos poucos, um dos raros, que hoje em dia salvam os jornais da total mediocridade: o da Alexandra Lucas Coelho.