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ainda os dias do fim
rosas
innersmile
Não tenho o atrevimento, e ainda menos a pretensão, de achar que este texto do Eduardo Pitta se refere a um par de comentários que eu e o Pinguim trocámos a propósito desta entrada aqui no innersmile. Mas a verdade é que, como me pareceu que ele me servia na perfeição, enfiei o barrete. Tenho um imenso respeito pela dimensão intelectual do EP, enquanto escritor e crítico literário, e sobretudo tenho muita simpatia e respeito por ele, por ser muito inteligente, por não ser provinciano, e por ser sensato. Pode parecer comezinho, mas são qualidades importantíssimas e cada vez mais raras. Mas desta vez discordo de Pitta, na apreciação que ele faz do livro Os Dias do Fim e nos argumentos que usa no referido texto, por três ordens de razões.

Em primeiro lugar porque acho que o livro de Ricardo Saavedra é, em rigor, um romance, e não uma reportagem. E não por uma questão de objectividade (que nem sequer é um requisito da reportagem), mas porque há uma efectiva ficcionalização do real, uma novelização. Claro que o livro segue de muito perto o desenrolar dos acontecimentos em Moçambique nos meses (ou melhor, nos dias) que mediaram entre o 25 de Abril e o 7 de Setembro, ou um pouco depois. E eventualmente até será esse o seu maior interesse. Mas não se trata de um puro colour by numbers, o livro não se limita a estabelecer uma matriz desses dias do fim, um esquema, um gráfico, uma cronologia e uma geografia. Pelo contrário, todo o livro é atravessado, e mediado, pelo romanesco, há personagens que são isso mesmo, o próprio narrador é sempre, e de forma assumida desde o prólogo do livro, uma personagem de ficção. Mesmo quando, repito, tudo parece não passar de um relato mais ou menos circunstanciado do desenrolar dos factos. O final do livro, por exemplo, é puro romance, com a descoberta da implicação de Samora no atentado que vitimou Mondlane e a ligação dessa descoberta à misteriosa morte do narrador. E é romance não porque isso seja mera ficção, mas porque é técnica narrativa, é peripécia, é o recurso utilizado para fechar o livro.

Por outro lado, referir que o livro é marcadamente ideológico não equivale a admitir que há um plano político, uma intenção de fazer política, que constitua uma dimensão autónoma da dimensão literária. Faz parte do pressuposto do livro, do seu cunho romanesco, que o narrador e protagonista viva os acontecimentos de certa maneira, com uma determinada perspectiva. Não é no discurso político que o livro assume uma dimensão ideológica. É na psicologia da personagem, no modo como ele adjectiva, a princípio mais subtilmente, depois de maneira cada vez mais sublinhada, as restantes personagens e os acontecimentos que se vão desenrolando.

Finalmente dizer que o livro tem uma marca ideológica não significa necessariamente qualificar, de forma mais ou menos primária, o livro como sendo de direita. Apesar de eu achar que a perspectiva do livro o é, inequivocamente. Não me parece haver contradição entre a denúncia do massacre de Wiyriamu e os acontecimentos do 7 de Setembro, de tal modo que uma equivaleria a uma perspectiva de esquerda e outra de direita. Porque o eixo que, na minha opinião, liga esses dois momentos do livro, sendo que a denúncia do massacre aparece logo no prólogo, como um dos pressupostos assumidos do que se vai contar no livro, é a denúncia do papel que as forças armadas foram assumindo quer em relação à guerra colonial quer na condução do período pós-revolução de Abril, particularmente no que toca ao destino dos territórios africanos sob administração colonial portuguesa. Ou seja, e na perspectiva do livro, foram as forças armadas portuguesas, e as chefias e os comandos militares, com acontecimentos como os de Wiriyamu e Vila Pery, que precipitaram a insustentabilidade da guerra e a inevitabilidade da revolução, e foram ainda elas que marcaram o destino e o modelo da descolonização, não só ao negociar directamente e sem condições, com os movimentos de libertação que mantinham a luta armada, de inspiração comunista, como ao varrer do terreno de jogo quaisquer veleidades de encontrar uma solução que não fosse essa.

Mas a marca ideológica do livro resulta ainda, na minha opinião, a outro nível: numa profunda contradição vivida pela população branca de Moçambique, que recusava a solução da entrega incondicional, por isso significar o seu fim, mas não conseguia propor no seu lugar qualquer outro modelo de solução política. Talvez porque aos brancos moçambicanos apenas interessasse manter o status quo, e ele era um beco sem saída: queriam continuar a ser portugueses mas recusavam Portugal. O que precipitou o 7 de Setembro foi, na tese do livro, o facto de andar uma carrinha de caixa aberta a passear-se pela baixa de Lourenço Marques arrastando pelo chão a bandeira portuguesa. O movimento que se desencadeou cantava o hino português e arvorava a bandeira portuguesa. Mas chamava-se a si próprio 'Moçambique Livre'. Percebe-se a contradição?