July 28th, 2008

rosas

into the wild

Como continuo a ter pouca vontade de ir ao cinema e não há assim muitos filmes que me obriguem a ir ao cinema (ok há o novo Batman), tenho passado pelo clube de vídeo, aproveito para ver filmes que perdi ou que não chegaram a ser exibidos em Coimbra, e que vou vendo nos intervalos da leitura, já que ando verdadeiramente obcecado com o livro que estou a ler. Eu sei que, como diz um amigo meu, já ninguém vai ao clube de vídeo, fazem-se downloads, mas hélàs!, eu sou um twenty century man.

Aproveitei assim para ver Into The Wild, o filme que Sean Penn fez baseado na história verídica de Christopher McCandless, um jovem licenciado, óptimo aluno e atleta da universidade, que decide abandonar família, estilo de vida e projectos para o futuro, e embrenhar-se no lado selvagem (o título em português) da natureza. Tratou-se, creio eu, e de acordo com o que li, mais de uma viagem de descoberta pessoal do que uma posição de rebeldia, perspectiva muito acentuada no filme e que acho que é o seu aspecto mais frágil. Porque aquilo em que o filme se ultrapassa é em transmitir-nos o enorme apelo da natureza que inebria Chris, e a nós espectadores, numa vertigem de imensidão e liberdade, mas que, por ser real e possível e natural, não é menos impossível e inatingível. Porque é esse sentimento, de uma profunda felicidade mas também de uma imensa tristeza, que o filme consegue instalar em nós, mas fá-lo com uma intensidade avassaladora. É impossível não nos deixarmos levar pela vertigem de Chris, e através dele sentirmos quase como nosso esse apelo pela natureza selvagem, o deslumbramento em que se abre a vida reduzida à sua função mais simples (ou mais natural); mas do mesmo modo também não podemos ficar impunes quando percebemos que não há saída para essa viagem libertadora, que o lugar que buscamos como nosso é tão impossível como o Alasca (ou como Ítaca?)
O filme de Penn fez-me muito impressão, porque gostei muito dele (muito muito) mas porque me deixou triste, como quando temos uma prenda muito bonita para dar mas não temos a quem a oferecer. O filme, de certo modo, passa a ocupar aqui na minha videoteca interior, um lugar próximo de Le Grand Bleu, do Luc Besson, talvez porque ambos são sobre o abismo (tinha escrito ‘o meu abismo’), sobre o mesmo irresistível apelo do abismo, e a incapacidade de percebermos que o abismo e a morte são a mesma coisa, que o abismo ou a natureza selvagem são lugares dentro de nós que já não existem e que por isso a viagem para esses lugares é sempre sem retorno, tão letal quanto libertadora.


O outro filme que vi foi I’m Not There, de Todd Haynes, e que pretende ser uma não-biografia de Bob Dylan, uma espécie de mapa austral que, através de uma galeria de personagens criadas a partir de aspectos biográficos ou artísticos de Dylan, pretende fixar as marcas distintivas da personalidade criativa daquele que é um dos maiores escritores de canções populares que contam a América. O objectivo era, como se percebe, demasiado ambicioso e as oportunidades de desastre grandes. Infelizmente confirmam-se todas, e o filme resulta num objecto pretensioso e artificial, desprovida de qualquer tensão dramática, que nem sequer à grande música de Dylan faz jus. Compare-se com o documentário de Scorsese No Direction Home, para perceber o que falha e o que falta ao filme de Haynes.
Para além do esforço que os óptimos actores fazem para insuflar um pouco de alma nestes proto-personagens, o único momento verdadeiramente bom do filme surgiu no genérico, na parte final, quando se ouve uma versão de Knocking on Heavens Door por Antony and The Johnsons, e que me pôs a suspirar pela respectiva banda sonora.


Recado para a Anie: agora que vi o filme sinto-me ainda mais contente e orgulhoso por te teres lembrado de mim e de mo recomendar.