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a barragem
rosas
innersmile
A BARRAGEM

Onde é que um homem pode guardar os seus segredos? Vejo-a na manhã mais fria, coberta de neblina, como se fosse um espelho em chamas, chamando os mortos. É funda como a alma, e é por isso que cabem lá todos os segredos. Muitas vezes me sento numa das escarpas de terra, coisa que ficou das obras, antigamente, e hoje é como se a natureza, a própria barragem, tivesse adoptado essa geografia desfigurada. Ali fico muitas horas, olhando a água como se fosse aço, e pensando em todos os segredos que estão afundados no bojo escuro e lamacento. Há sonhos, concerteza, brincadeiras de rapazes, promessas das raparigas, um carro que se despistou quando alguém fugia, e armas, muitas, que é fácil parar lá em cima, na ponte, e atirá-las à agua embrulhadas em panos atados com um baraço. Nessas horas longas em que, parado, olho a superfície das águas, vêm-me à lembrança os segredos que eu trago sempre comigo, no bolso de dentro do peito, a pesarem-me na nuca, a estrangularem-me a garganta. Penso como seria fácil metê-los na mala do carro, fazê-lo descer pelo caminho de terra batida, e guardá-los aqui neste cofre de ferro, escondidos pelo enganador reflexo da água.
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