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os dias do fim
rosas
innersmile

Talvez ainda volte aqui ao livro, mas para já uma notazinha para registar que estou a ler (vou para aí a um terço) Os Dias do Fim, de Ricardo Saavedra, um registo dia a dia dos meses que mediaram entre o 25 de Abril e o 7 de Setembro de 1974, tal como foram vividos em Moçambique, sobretudo na sua capital, Lourenço Marques.
O livro está a provocar-me sentimentos opostos, e o melhor é tirar já do caminho os negativos: a perspectiva do livro é a do Portugal colonial, a do 24 de Abril, assumindo uma postura assumida e algumas vezes agressivamente critica do regime saído da revolução. Ou seja, é um livro reaccionário até à quinta casa. Se esta posição crítica não deixa dúvidas, por outro lado o livro já tem alguma dificuldade (pelo menos até ao momento da leitura em que me encontro) em assumir com clareza a solução que defendia: a manutenção da situação colonial ou a chamada independência branca, à moda da Rodésia.
Agora, independentemente disto a verdade é que a leitura do livro me está a entusiasmar, e a vários níveis. Desde logo pelo tema, a história recente de Moçambique e do Portugal colonial, que é um tema que me interessa. O livro traça um retrato fascinante do que era o quotidiano da vida moçambicana, sobretudo lourenço-marquina, no momento em que se deu a revolução em Portugal. Há, por outro lado, um evidente interesse histórico. O livro traz-nos uma perspectiva que, mesmo que discordemos dela, não deixa de ser válida e, como se sabe, partilhada por muita gente. O manancial de informação é imenso e, independentemente de termos em relação a ele uma postura crítica, tem inegável interesse documental.
Por fim, o livro é interessante enquanto obra literária. Nomeadamente pelo tamanho do desafio a que se propõe: contar, utilizando um registo ficcional mas que está sempre sintonizado com a realidade histórica, o quotidiano de um tempo como não haverá outro, tal a riqueza e a dimensão das transformações que se estavam a operar e os seus efeitos na vida de milhares, ou milhões, de pessoas, e na geografia política do mundo. Neste aspecto, o livro filia-se assumidamente na corrente literária ensaio ficcionado cujo paradigma é In Cold Blood, de Truman Capote.

piquenique
rosas
innersmile
DE TARDE

Naquele piquenique de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela;
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!



Não terá sido exactamente assim (em vez de melão foi melancia), mas foi tão belo e divertido. Por isso o poema do Cesário vai naturalmente dedicado aos amigos do piquenique, com um agradecimento especial aos que tiveram a belíssima ideia e a imensa trabalheira de o organizar.