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estação seca . 17/25
a_seco
innersmile
17

Ardem-te as veias, da serenidade com que afivelas a máscara sorridente durante as horas em que te expões no mercado dos escravos. Os olhos fogem-te por cima da janela, voas ao redor das copas amenas das árvores, e o céu azul tão iluminado é um vento fresco e leve que despenteia o teu dia sombrio, mas sabes que tudo isso são momentos frágeis como grãos de areia fina, que escapam ligeiros por entre os dedos do teu desespero. De resto, ofereces o teu corpo às mandíbulas assanhadas dos algozes, e até já te embalas com o golfar marulhante dos teus despojos. Porque desistes a cada dia? Que pavor te prende ao fundo e te arrasta, lenta mas vorazmente, para a doce acidez do infinito desamparo que te espera depois das horas? Porque não largas a máscara e te ajoelhas, louvando o fim das grilhetas? Ao invés, prossegues sorrindo para os rostos vazios e desfigurados que te surgem na moldura da porta. Apertas com os dedos o golpe rasgado e deixas-te ir, embrutecido pela cantilena do tráfego, clamando hosanas, lá fora, na rua.
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