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patricia highsmith, the tremor of forgery
rosas
innersmile
Terminei na segunda-feira a leitura do livro da Patricia Highsmith, The Tremor of Forgery, que tinha começado a ler na última noite de férias, que passei em São Pedro de Moel. Apesar de o livro ser pequeno e de a escrita da Highsmith ser não só fácil como viciante, foram-se metendo outras coisas pelo meio e demorei uns dias até lhe pegar de novo.

O livro é uma delicia, acho que foi das coisas da PH que mais gozo me deu a ler. Apesar de o livro não ter um plot muito complicado, aliás é até nesse aspecto relativamente pobre. Um escritor norte-americano chega à Tunísia para escrever o argumento de um filme para um realizador e produtor, que o contratou e que é suposto juntar-se-lhe ao fim de alguns dias. O tempo vai passando, e as primeiras semanas decorrem sem que o escritor tenha quaisquer notícias do realizador ou da sua própria namorada. Quando as notícias finalmente chegam fica a saber que o realizador se tinha suicidado no seu (dele, escritor) apartamento por estar apaixonado pela sua (dele, escritor) namorada! Quando sabe destas notícias o escritor em vez de regressar aos Estados Unidos, decide ficar na Tunísia, em Hammammed, uma estância de férias, a trabalhar na escrito do seu novo livro. Entretanto estabelece amizade com um compatriota que faz misteriosas e empolgadas transmissões de rádio para os países da cortina de ferro (estamos em plena guerra fria) e com um dinamarquês, pintor e homossexual, que vive num prédio em pleno bairro árabe, e não nos ocidentalizados hotéis, e a quem acabaram de roubar o cão. A opinião do escritor e dos seus amigos acerca dos habitantes locais não é a melhor, e só piora quando uma noite alguém tenta entrar no bengalow do escritor para roubar. Acordado, e sem perceber quem era o intruso mas parecendo reconhecer o formato de um turbante, o escritor atira-lhe com a máquina de escrever, sente o outro a cair para trás, com um grito, e corre a fechar a porta. Passados uns momentos sente o barulho do corpo a ser arrastado, mas no dia seguinte esta tudo calmo, ninguém sabe de nada e os rapazes árabes empregados do hotel negam sempre que se tenha passado qualquer coisa durante a noite.

E pronto, a partir deste momento, que é sensivelmente a meio do livro, não acontece mais nada de muito relevante em termos de acção, e o resto do livro é um exercício brilhante sobre a moral e a culpa. Mas apesar de parecer que não acontece nada, cada peripécia, mesmo as coisas que parecem ser um pouco marginais em relação à acção principal (como a trama do livro que o escritor está a escrever, ou o homem que aparece morto na rua, à noite, ou o regresso do cão do pintor), têm um valor certo e determinado na narrativa, sobretudo no quadro de referências morais e comportamentais que serve de confronto ao escritor e às suas dúvidas e reflexões.

Particularmante rico, e constituindo o cerne do livro, é a questão moral. Não sabendo ao certo se matou o árabe que tentou entrar no seu quarto, o escritor debate-se com o imperativo moral de saber se é relevante ou não a possibilidade de efectivamente ele ter morto, ainda que inadvertidamente, e mesmo tratando-se de um vulgar ladrão cujo desaparecimento não parece incomodar ninguém, e se deve fazer alguma coisa em relação a isso, a começar por assumir que de facto aconteceu alguma coisa nessa noite. Cada um dos co-protagonistas, o compatriota, o pintor e a namorada que acaba por o vir visitar, representa uma posição diferente em relação ao seu debate moral interior, mas subsiste sempre a dúvida essencial: a moral existe de per si, com um valor absoltuto que é reconhecido por todos, ou é antes uma referência relativa que só faz sentido quando é reconhecida como tal pelos outros.

A moral sempre foi um dos temas predilectos de Patricia Highsmith, como tão bem exemplificam os romances da série Ripley, o seu mais fascinante e conseguido personagem. Mas a genialidade da escritora reside no facto de conseguir fazer esse debate (que, suponho eu, a deveria interessar muito pessoalmente, por questões que tinham a ver com a sua sexualidade) sem qualquer doutrina, sem exposição teórica, mas apenas com a trama dos romances e com um domínio exemplar, e férreo, da narrativa. E, é claro, com uma linguagem simples e clara, mas com uma enorme capacidade de sugestão, que seduz e arrasta o leitor através de uma viagem ágil e leve mas que mergulha sempre no mais fundo e no mais escuro.