July 10th, 2008

rosas

inventário


Já Cá Não Está Quem Falou é uma colectânea de crónicas publicadas em jornal por Alexandre O'Neill ao longo de várias décadas. Dada a natureza da recolha, o livro é naturalmente desigual, mas a capacidade de O'Neill de brincar com a linguagem, o seu sentido de humor, e um sentido de observação sempre muito acutilante, tornam-no, como sempre acontece com as obras do escritor, indispensável. De resto, o proverbial sentido de humor, contaminado por uma ironia tão corrosiva que por vezes toca a crueldade, começa no próprio título do livro. Segundo li, trata-se de um título encontrado nos escritos de O'Neill precisamente para um possível livro póstumo.


A Mãe de Todas as Histórias é o título do mais recente livro de poemas de António José Almeida, de quem eu já conhecia o anterior O Rei de Sodoma. Há uma nota importante que tem a ver com o facto de uma parte substancial desta poesia ter um carácter assumidamente homossexual, muitas vezes mesmo homo-erótico. Muitos dos poemas de AJA como que procuram os sinais, ou as marcas, ou mesmo apenas a possibilidade, de uma poética da vivência homossexual, quer no aspecto afectivo e da relação amorosa, quer no contexto do tráfego erótico. Quanto a este mais recente livro, a história a que o título se refere é a de Adão e Eva, e muito do universo desta poesia vive de uma certa busca em procurar os lugares da actualidade, do quotidiano, onde se possa inscrever o misticismo do cristianismo.

OS SODOMITAS

Em itálico grafados
noutras palavras mais duras,
com mofa são observados
de viés por essas ruas.

Como hienas na pintura
de bestiários passados,
em velhas lendas perduram
os varões assinalados.



E já que estou com a mão na massa aproveito para registar aqui o cd que tem andado a rodar no meu carro, e que se chama New Dawn, Ku Khata, do músico moçambicano, radicado na Holanda, Neco Novellas (tem página no MySpace). O grande mérito deste disco é também a sua maior fragilidade, nomeadamente a sua vontade de mantendo embora firmes as ruas raízes étnicas, misturá-las e mesmo dilui-las com outros sons, nomeadamente com o jazz, o samba, o reggae ou mesmo o pop-rock anglo-saxónico, quer na sua vertente americana quer na sul-africana. Esta vontade de misturar deixa por vezes demasiado à mostra as influências de NN, e algumas faixas não chegam sequer a descolar dos seus modelos. Por isso, mais do que um resultado satisfatório, este cd é sobretudo uma bela promessa do que ainda pode vir a fazer um músico muito talentoso, quer como intérprete quer como compositor, oriundo de uma família de tradições musicais e com uma experiência grande e muito variada.