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são pedro de moel, 1
rosas
innersmile
30.6.08
De novo em São Pedro de Moel para uns dias de praia (se o tempo ajudar) e de fare niente. O lugar parece estar a sofrer um face lifting. Muitas casas pintadas de novo (de branco) e o hotel sofreu uma remodelação profunda. Está mais moderno e mais confortável. Infelizmente perdeu um certo ar retro e de hotel de província, que lhe dava um certo charme. O ano passado por esta altura estava pouquíssima gente, este ano está cheio de turistas estrangeiros (ok, há também um casalinho gay). O bar estava, depois do jantar, cheio de excursionistas a beber e a falar muito alto, numa daquelas línguas muito ásperas e que parece que apenas podem ser faladas aos berros. Lembrei-me do bar o ano passado, onde apenas costumavam estacionar um casal com ar suspeito e clandestino, e os soldados do posto da GNR, mesmo aqui ao lado, a beber cerveja e a jogar no bilhar.

Como estou um cidadão info-excluído (o meu computador portátil está agónico, não o consigo ter ligado por períodos superiores a cinco minutos), ontem à noite, ainda em casa, tomei nota de duas entradas para o innersmile. Vinha a contar com um computador que havia aqui no hotel, na recepção, ao dispor dos clientes, mas uma das remodelações foi acabar com esse computador e substituí-lo por acessos pagos a um operador wi-fi. Por isso vou transcrever para aqui essas duas entradas de ontem.

29.6.08
Estranho. Hoje, ao longo do dia, encontrei seis pessoas do meu antigo emprego. Num domingo, tempo de praia, seis! Passo semanas sem encontrar ninguém e hoje sempre que saí de casa, em cada curva do caminho, saltava-me à frente mais uma pessoa do meu antigo emprego. Até na bomba da gasolina, no ponto de abastecimento de ar para os pneus. No supermercado foram três, tendo-me uma delas atropelado com o carrinho. Das seis consegui evitar uma, não me apetecia nada conversar com ela. Com três, incluindo a que me atropelou, foram cumprimentos de circunstância. Com as restantes duas estive um bocadinho a conversar porque, não sendo propriamente amigas, são daquelas pessoas que me dá prazer encontrar.

29.6.08
Final do europeu de futebol. Gostei que a Espanha tivesse ganho, porque foi a melhor equipa em jogo, praticou um futebol bonito, vivo, com vontade de jogar e de ganhar.
Agora não percebo a cena de o pessoal ficar feliz porque a Alemanha perdeu. A começar pelos comentadores do desafio na televisão, que nem se davam ao trabalho de disfarçar que estavam a torcer pela derrota alemã. Mais não seja é um bocado mesquinho ficarmos contentes, mesmo eufóricos com a derrota dos outros. Ficarmos contentes porque a nossa equipa ganhou é natural, faz parte, não é? Ficarmos contentes porque os outros perderam, é estranho.
Mas é pior: essa alegria é uma espécie de vingança por a Alemanha ter derrotado a selecção nacional nos quartos de final! Ora isso também já é ser medíocre. Eu aprendi quando era puto que devíamos querer sempre que as equipas que ganham à nossa vençam o campeonato porque isso significa que só os melhores ganham aos melhores.
Agora dá um certo gozo estarmos todos exultantes com a vitória da Espanha e senti-la quase como nossa. Eu percebo que esse gozo é instrumental, mas mesmo assim que me lembre é a primeira vez que vejo os portugueses contentes por os espanhóis terem ganho, e logo no futebol, onde costumava haver uma rivalidade feroz. E lembrar que para aí há um ano o Saramago ia sendo queimado vivo por ter falado em iberismo, e por ter dito numa entrevista que o nosso destino provável era acabar por ser uma província de Espanha.

leituras de férias
rosas
innersmile

Vinha já com Califórnia, de Eduardo Mendicutti (edição da Bico de Pena), praticamente lido, faltavam-me vinte ou trinta páginas para terminar. Um romance total e assumidamente gay, com uma primeira parte passada em Los Angeles, em meados dos anos 70, em que um jovem espanhol mergulha na vida de hedonismo no coração de Hollywood enquanto em Espanha se espera que Franco morra. Na segunda, trinta anos depois, esse jovem é um executivo no escritório madrileno de uma multinacional. Apesar dos envios permanentes da narrativa actual para a passada nos anos 70, a verdade é que entre as duas partes não há grande relação, servindo ambas sobretudo para traçar dois tipos bem diferentes de vivência da homossexualidade e dos seus problemas e de uma certa cultura gay. Digamos que do confronto das duas agendas, a dos anos 70 e a actual, que toma como referência o bairro da Chueca, esta parece mais consistente e interessante, mas a dos anos 70 soa bem mais divertida e transgressora.
É o segundo livro de Mendicutti que a Bico de Pena edita na sua colecção dedicada à temática homossexual; antes já tinha publicado Não Tenho Culpa de Ter Nascido Tão Sexy, que eu não li.


Depois li O Fim das Miragens, Um Crime no Jet-Set, da autoria do jornalista Paulo Moura, grande repórter do jornal Público. O livro relata, em estilo de reportagem alargada, um crime praticado, ou melhor mandado praticar, por uma mulher do jet-set lisboeta que decide que o assassinato do marido de quem está na eminência de se divorciar, é a melhor maneira de resolver uma crise de liquidez financeira. Gostei muito do tom do livro, que nunca resvala para o estilo sensacionalista que o tema podia puxar, mas que também nunca adopta um tom moralista, embora acabando por fazer um retrato impiedoso de um certo Portugal, arrivista, de celebridade fácil, de dinheiros obscuros, alimentado pelas revistas do coração e pelos sonhos levianos de classe média. Portugal que, evidentemente, somos nós, apesar de nos poder parecer que o tipo de pessoas e de meio em questão está muito distante.


Li também um clássico da banda desenhada, A Marca Amarela, de E.P. Jacobs. Não sou grande leitor de BD, not that there’s anything wrong with it, como diria o Seinfeld, mas apenas porque não me puxa muito. Mas sou fã das aventuras de Blake & Mortimer, e como tinha lido há pouco tempo a mais recente (e pós-Jacobs) aventura da dupla, O Santuário de Gondwana, lembrei-me de reler este que é um dos clássicos da série.


Ainda li o meu segundo P.G. Wodehouse, O Código dos Wooster, depois de ter lido Época de Acasalamento aqui há uns meses. Sempre com os mesmos protagonistas, Bertram Wooster e o seu valet Jeeves, os livros são, em termos de trama narrativa, um pouco irrelevantes, variantes do mesmo, mas as peripécias, e sobretudo o humor e o estilo de escrita podem se tornar viciantes. Espero que os livros Cotovia, através da chancela Raposa Matreira, continue a editar as obras deste autor.


Finalmente comecei a ler um livro da Patricia Highsmith, The Tremor of Forgery, uma história de mistério e inquietude, como é habitual na autora. Estou a ler em inglês, o que é uma oportunidade de apreciar o estilo eficiente e insinuante de Highsmith, e o modo como ela nos consegue transmitir sobretudo através da própria escrita, da linguagem, a sensação de desconforto, de que as coisas nunca são o que aparentam, e mesmo assim nunca temos a certeza do que é que elas aparentam.