June 27th, 2008

rosas

o foragido

Não vi a entrevista com Vale e Azevedo, não tenho nenhuma simpatia pelo personagem, mas concordo com o bastonário da Ordem dos Advogados quando diz que o ex-presidente do Benfica foi mal-tratado pela justiça portuguesa e tem todas as razões para não regressar voluntariamente e preferir resguardar-se junto de um sistema judiciário, o inglês, que aparentemente lhe dá maiores garantias.
Não está em causa que tenha de ser julgado pelos crimes que cometeu e que por eles deva cumprir pena. Trata-se de que um país é tanto mais civilizado quanto mais garantias o sistema judicial oferece aos cidadãos de que têm direito a ser tratados com dignidade, mas sobretudo de que serão poupados a humilhações e vilipêndios que têm menos a ver com a realização da justiça e mais com subliminares comportamentos do foro da psicologia ou da sociologia.
E a verdade é que, independentemente dos crimes que cometeu, Vale e Azevedo foi tratado com total desrespeito pelas mais elementares regras da dignidade. Não tenho aqui um rol, como é evidente, mas bastar-me-ia apenas um episódio do qual guardo memória e incómodo: a ocasião em que Vale e Azevedo foi libertado da cadeia e segundos depois, e ainda à porta do estabelecimento prisional, foi novamente preso! E, para aumentar a humilhação, tudo defronte do olhar obsceno das câmaras de televisão.
É que há sempre duas maneiras de ver o problema. Se para todos os efeitos a questão aqui é a de um simples foragido à justiça, também é verdade que bastaria esse episódio humilhante para transformar Vale e Azevedo numa vítima da justiça portuguesa e para legitimar a sua recusa em regressar voluntariamente a Portugal.
rosas

solo

Por vezes a beleza é triste e assim explica-se mais facilmente. Mas outras vezes não, é só uma beleza intensa, lírica, derramada como a luz do sol nos passeios de calçada deste Junho português. E deve ser por isso, por essa intensidade impossível, por ser uma nesga de felicidade que entrevemos e sabemos nunca conseguir segurar nas mãos, deve ser, sim, essa improvável e intocável saudade que sabemos que vamos sentir de alguma coisa que nunca provámos, deve ser isso tudo que nos provoca uma imensa vontade de chorar quando nos encontramos, tão desprevenidos e desamparados, perante a beleza.
Deve ser por isso tudo (ou não, diria a menina) que estou aqui a ouvir o disco novo do António Pinho Vargas, Solo, e a sentir que a única coisa decente que um tipo pode fazer perante música assim é romper em choro, lágrimas silenciosas e ternas como passarinhos. É um álbum duplo, os discos têm nome, Imperfeições 1 e Imperfeições 2, e então talvez seja a forma tão perfeita como estas imperfeições nos retratam. As músicas umas são novas, quase todas não, são canções, sim canções antigas, que já conhecíamos de discos anteriores do António Pinho Vargas, mas recriadas como se fossem um hino qualquer à solidão, um apelo à paz, a ânsia da cabeça em desalinho em repousar na serenidade de uma almofada branca.
Que fazer perante um disco assim? Vale chorar?