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o jardim dos perversos
rosas
innersmile


Acabei de ler ontem à noite o livro O Jardim dos Perversos, da autoria de Fernando Duarte Rocha (edição Guerra e Paz). Em poucas palavras, o livro organiza-se como a memória ficcionada de um adolescente, na segunda parte da década de 70, habitante de um bairro periférico de Lisboa (no caso, Moscavide), e que basicamente ocupa os seus dias a jogar futebol, a roubar discos e livros e a alinhar com homossexuais a troco de dinheiro e a quem acaba por assaltar. Nos intervalos reúne-se com os amigos e companheiros de aventuras no jardim do bairro, o que dá o título ao livro. Suponho que este relato terá muito de autobiográfico, de memórias próprias do autor, mas isso é perfeitamente secundário, pois a partir do momento que é filtrado pela literatura passa a ser ficção.

A primeira nota interessante do livro tem a ver com uma questão geracional: o autor tem a minha idade, o narrador e protagonista também, e há todo um quadro de referências comuns, sobretudo culturais, como as bandas de rock, os discos de vinil e os livros e autores, mas também de acontecimentos e do próprio ambiente politico e social da época.
Para além desse quadro de referências o autor consegue traçar um retrato bastante impressivo e fiel do que era efectivamente o Portugal urbano (quase exclusivamente lisboeta, dado que o país na altura era essencialmente rural) dessa altura, e de como era ser adolescente nesse Portugal. Como referi resulta do livro um determinado ambiente social e de mentalidades que está bastante bem conseguido. Acho que não há ninguém que tenha vivido esse tempo que não vai reconhecer no livro o país em que viveu.
Muito do que era a vivência da homossexualidade nesse tempo está igualmente retratado no livro, quer no que respeita aos jovens protagonistas (a prostituição, os assaltos aos homossexuais, a pedofilia em modo português suave, o Terminal do Rossio e o Imaviz, a praia da Caparica, etc) quer no próprio retrato, ainda que fugaz e obviamente limitado, que acaba por resultar do que era ser homossexual em Portugal ou pelo menos uma certa vivência da homossexualidade.
Aliás a este respeito lembrei-me muito de um livro do Guilherme de Melo (que de resto prefacia o livro de Fernando Duarte Rocha), publicado creio que ainda em finais de 70 ou então logo no início dos anos 80, intitulado, penso eu que não tenho aqui o livro para confirmar, A Homossexualidade em Portugal, cujo retrato, tanto quanto me lembro, não anda muito longe do que resulta deste Jardim dos Perversos.

Como aspectos mais frágeis, destaco uma linguagem um pouco naive, por vezes mesmo um pouco kitsch, que nalguns casos acaba por estragar o ambiente do livro por se tornar um pouco risível. Dou o benefício da dúvida ao autor de tentar criar uma linguagem própria para o personagem, coerente com o seu carácter, mas o autor tem o narrador e personagem tão colado a si, que não é muito crível que assim seja.
Outro aspecto que achei menos conseguido tem a ver com o facto de o narrador por vezes se dispersar em expor os seus pontos de vista sobre temas pretensamente sérios. As suas opiniões são, regra geral, pouco elaboradas e por isso não muito interessantes, e além disso provocam quebras num ritmo narrativo que é geralmente muito bom. Estou-me a lembrar, por exemplo, de um capítulo que relata um encontro com duas testemunhas de Jeová que, para falar com franqueza, não tem interesse, não contribui nada nem para a narrativa nem sequer para o desenho da personagem.
Ao contrário, gostei particularmente dos pequenos interlúdios com memórias de infância do narrador, não só porque ajudam a caracterizá-lo melhor, mas também porque nos dão informação interessante acerca da época.

Em suma, e embora não se tratando de uma obra literária de grande fôlego, achei o livro muito interessante, escrito com ritmo e com sentido da narrativa, e que é indispensável para quem tem memória dos anos 70 e de como era o país em que vivíamos nesse tempo, mas também para quem tem curiosidade em ficar a conhecer melhor o que era ser jovem, ou talvez com mais rigor o que era um dos modos de ser adolescente no Portugal a seguir à revolução de Abril.

seis características
rosas
innersmile
O Pinguim desafiou-me, lá no blog do João, a enumerar as seis características mais evidentes suponho que na minha maneira de ser, daquilo que se chama vulgarmente 'feitio'. Confesso que tenho muita dificuldade em responder convenientemente ao proposto.

Desde logo porque uma das minhas características mais evidentes é a timidez, e por isso gosto pouco de me pôr a olhar para mim, sobretudo se estiver muita gente a ver. Como qualquer tímido, passo muito tempo a ver e a observar o mundo à minha volta e a tentar perceber como é que hei-de lidar com ele, o que me leva, acho eu, a ser um bocado egocêntrico em demasia. Mas egocentrismo não é exactamente a mesma coisa que ser egoísta, e isso acho que não sou, ou pelo menos acho que não sou muito; pelo contrário, até acho que sou um tipo generoso, sem falsa modéstia. Se não cultivo a modéstia, esforço-me todavia por cultivar a humildade, até porque acho que tenho a tendência para ser um bocadinho arrogante. Esforço-me por ser sempre honesto, sobretudo comigo próprio, nunca me enganar nem ceder à auto-complacência. Acho que é esta honestidade que me leva a ser lúcido, por vezes de uma maneira implacável.

E tentando ter a maior lucidez possível, confirmo que tenho muita dificuldade em eleger as seis características que melhor me definem.
Mas sempre que me pedem para eu me definir (e agora tornou a acontecer com este meme) a primeira coisa que me vem à ideia são os versos de uma canção do Caetano Veloso: «sou tímido e espalhafatoso». De facto não sou espalhafatoso, mas gostava de ser, precisamente assim, tímido e espalhafatoso. De alguma maneira esta canção do Caetano, a Vaca Profana, faz parte de um lotezinho de canções dele a que recorro para me confrontar comigo próprio, para me medir. Mais do que as canções da minha vida, são de algum modo as canções que contam a minha vida.
Por isso acho que a melhor maneira de responder ao desafio do João é mesmo pôr aqui o clip da Vaca Profana cantada pela Gal Costa, que foi aliás quem lançou a canção no lindíssimo e antiquíssimo (anos 80?) disco justamente intitulado Profana.



Respeito muito minhas lágrimas
Mas ainda mais minha risada
Inscrevo assim minhas palavras
Na voz de uma mulher sagrada
Vaca profana, põe teus cornos
Pra fora e acima da manada
Ê
Êê dona das divinas tetas
Derrama o leite bom na minha cara
E o leite mau na cara dos caretas

Segue a movida Madrileña
Também te mata Barcelona
Napoli, Pino, Pi, Pau, punks
Picassos movem-se por Londres
Bahia onipresentemente
Rio e belíssimo horizonte
Ê
Êê vaca de divinas tetas
La leche buena toda en mi garganta
La mala leche para los puretas

Quero que pinte um amor Bethânia
Steve Wonder, andaluz
Como o que tive em Tel Aviv
Perto do mar, longe da cruz
Mas em composição cubista
Meu mundo Thelonius Monk’s blues
Ê
Êê vaca de divinas tetas
Teu bom só para o oco, minha falta
E o resto inunde as almas dos caretas

Sou tímido e espalhafatoso
Torre traçada por Gaudi
São Paulo é como o mundo todo
No mundo um grande amor perdi
Caretas de Paris, New York
Sem mágoas estamos aí
Ê
Êê dona das divinas tetas
Quero teu leite todo em minha alma
Nada de leite mau para os caretas

Mas eu também sei ser careta
De perto ninguém é normal
Às vezes segue em linha reta
A vida, que é meu bem, meu mal
No mais as ramblas do planeta
Orchata de chufa si us plau
Ê
Êê deusa de assombrosas tetas
Gota de leite bom na minha cara
Chuva do mesmo bom sobre os caretas