June 23rd, 2008

rosas

as leis do futebol

O que eu mais gostei no jogo de ontem da Espanha frente à Itália, foi do guarda-redes italiano, o Buffon, a fazer festinhas aos jogadores espanhóis. É preciso ser um enorme atleta para num momento de grande tensão manter uma certa descontracção e conseguir não esquecer que o adversário é ainda um amigo ou um colega.
Mas também ao puto Torres quem é não desatava a fazer-lhe festinhas, não é?
rosas

saramago e le corbusier

Rápida incursão na capital para ver duas exposições.
A primeira, no Palácio da Ajuda, José Saramago – A Consistência dos Sonhos, um belíssimo passeio pela obra e pela vida de escritor do prémio Nobel da literatura. Uma exposição muito bem montada e com um acervo documental e iconográfico muito rico. Parece-me, para quem gosta do escritor, uma oportunidade única de ficar a compreender melhor o universo literário de Saramago, pois não me parece muito fácil reunir de novo a quantidade expressiva de elementos aqui expostos.
Gostei sobretudo da primeira parte da exposição, a que segue, em linha cronológica, o percurso do escritor. Há, como é óbvio, uma componente de curiosidade pura em poder observar determinados documentos. Mas há igualmente um interesse muito forte em perceber o enorme compromisso de Saramago com a literatura, os seus métodos de trabalho, e a forma como o escritor se projecta no mundo sempre a partir da literatura.
Para além desse compromisso com a literatura, houve outro aspecto que me impressionou bastante. Quem conhece Saramago, que lhe lê os livros, nomeadamente os volumes dos diários de Lanzarote, quem lê ou ouve as suas entrevistas, quem está atento às suas movimentações, sabe que é mais ou menos evidente no escritor uma vontade de posteridade, que é outra coisa do que a simples e proverbial vaidade. Ora o que me surpreendeu foi de certo modo perceber nos papéis de Saramago, na forma como ele documenta o seu próprio percurso de escritor, as marcas dessa vontade, a que não é alheia a riqueza iconográfica desta exposição.

A outra exposição que vi foi Le Corbusier – A Arte da Arquitectura, no Museu Berardo. Talvez porque viesse da exposição de Saramago, de que gostei imenso, talvez porque tivesse expectativas altas em relação a esta exposição, a verdade é que fiquei um pouco indiferente perante esta proposta de olhar a arquitectura e o design de Le Corbusier a partir da perspectiva da sua ligação à arte e aos grandes movimentos da arte no século XX.
A arquitectura é possivelmente das artes humanas a que mais me fascina, talvez porque, por um lado, exige uma linguagem muito articulada entre o discurso artístico e o discurso técnico, e, por outro, pelo seu lado fortemente transformador, pela forma como se inscreve e reescreve a paisagem, quer a humana quer a natural. Talvez por isso quando vejo uma exposição de arquitectura estou sempre à espera de ver desenhos, projectos, maquetas, modelos. E disso (com excepção das maquetas) há relativamente pouco nesta exposição. De certa forma para mim os paradigmas das exposições sobre arquitectos são duas mostras que vi sobre a obra de Frank Lloyd Wright, uma delas aqui mesmo neste espaço do CCB, e outra sobre Óscar Niemeyer, no antigo pavilhão de Portugal na Expo. Qualquer delas era brilhante em devolver ao espectador esses dois aspectos, quer no tocante à obra construída ou projectada, quer, mais importante, no retrato que faziam do próprio desejo transformador que anima o arquitecto.
De qualquer modo foi a primeira grande exposição que eu vi dedicada à obra de Le Corbusier, e que nos dá uma justa evidência da dimensão de quem é um dos mais estimulantes arquitectos da contemporaneidade.

Claro que aproveitei e fui dar uma vista de olhos às restantes mostras do Museu Berardo, duas salas com obras da colecção do museu e ainda uma outra exposição de fotografia, muito interessante, sobre o lugar da Utopia na arquitectura moderna.

Pelo caminho, um passeio a pé desde a Ajuda até Belém pela Calçada da Memória, um pequeno almoço tardio na fábrica dos pasteis de Belém, com torradas de pão alentejano e dose dupla dos ditos, um almoço ainda mais tardio na esplanada do Noo-Bai, que eu já conhecia, e é uma delícia, pela ementa muito gay, pela frequência idem idem, e pela vista luminosa sobre o porto e o rio, e uma passagem rápida pela Fnac Chiado, já a caminho do comboio de regresso, e que me serviu para comprar um livro de poesia de que falarei noutra ocasião.

Em suma, papinho cheio como há muito não acontecia.