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aos costumes
rosas
innersmile
«I don’t know how to say good-bye because I can never leave you. We will never watch a sunset together again. We will never share the emotions together before a painting again. Someday I will join you under the palm trees of Morocco. I want to tell you my admiration, my profound respect and my love.»

São as palavras finais da comovente elegia proferida por Pierre Bergé no funeral de Yves Saint Laurent (corre na net um clip com imagens, ao qual cheguei por cortesia do João e pode ser visto neste link). Os dois foram amigos, parceiros de negócio e, durante bastante tempo, amantes. Aliás o papel de consorte oficial de Bergé foi reforçado pelo facto de ter sido ele a anunciar a morte do mais famoso costureiro da actualidade, para além, é óbvio, do próprio conteúdo do seu elogio fúnebre.

Agora há outro aspecto muito interessante e que causa uma dupla perplexidade: o facto de este discurso ter sido proferido dentro de uma igreja. No próprio enquadramento o plano de fundo da imagem é quase sempre constituído por dois sacerdotes. A primeira perplexidade, feliz, tem a ver com a própria possibilidade de o amor entre dois homens, quero dizer: o amor que também foi carnal entre dois seres do sexo masculino, poder ser assim tão livre e naturalmente enunciado no interior de uma igreja durante a celebração de um rito católico.
A segunda perplexidade, menos feliz, tem a ver com a facilidade com que a igreja se esquece dos seus pruridos, ou mesmo dos seus autos de fé, quando ela própria se ajoelha perante os poderosos. E a verdade é que por cada celebridade, mesmo que seja morta, que a igreja recebe olhando discretamente para o lado no que toca aos seus vícios públicos (e apesar de o ter negado durante muito tempo, Saint Laurent acabou por admitir publicamente a sua homossexualidade), há dezenas ou centenas ou milhares de pessoas a quem a igreja fecha a porta na cara por causa dos seus vícios privados.