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edmundo white, my lives
rosas
innersmile


My Shrinks, My Father, My Mother, My Hustlers, My Women, My Europe, My Master, My Blonds, My Genet, My Friends.
São estes os capítulos (falta-me ler o último) em que se divide My Lives, a autobiografia de Edmund White, o que é logo o primeiro sinal de diferença. O livro não se organiza, como é habitual no género, cronologicamente, e a divisão por temas permite ao autor fazer não tanto um relato mais ou menos factual do que foi a sua vida, mas sobretudo uma reflexão acerca do papel que na sua vida tiveram esses intervenientes e os acontecimentos a eles ligados.

Importa salientar que Edmund White é essencialmente um escritor autobiográfico. Da cerca de dezena de livros que li dele só um (Fanny, A Novel) não era claramente sobre si próprio. Quatro dos seus principais romances (os mais populares, A Boy’s Own Story e The Beautiful Room is Empty, e ainda The Farewell Symphony e The Married Man, todos traduzidos e editados em Portugal) constituem uma tetralogia assumidamente autobiográfica, em que por vezes apenas os nomes dos protagonistas são alterados. Nesses quatro livros Edmund White relata o essencial de sua vida afectiva e homossexual, o que foi a sua adolescência, e o que foram os seus grandes relacionamentos sentimentais. De algum modo My Lives como que vem preencher os espaços em branco entre esses quatro livros, ou mesmo dentro de cada um deles, ora dedicando atenção a fases ou episódios que tinham ficado de fora dos romances, ora reescrevendo e desse modo iluminando essas passagens, agora sem o manto diáfano da fantasia a atrapalhar.

Outro aspecto que importa salientar é que a obra de Edmund White, quer a de romancista quer a de ensaísta, sempre teve como tema dilecto o sexo. Não que se trate de um escritor erótico (e ainda menos pornográfico), apesar de nunca evitar relatos mais gráficos e explícitos, mas de facto o sexo, e sobretudo o sexo tal como ele o praticou e como dominou toda a sua vida (afectiva, mas também literária), é o grande tema dos seus livros. Por aqui se percebe que os seus livros têm sempre um grau de exposição que por vezes choca, nomeadamente porque muitas vezes parece quase raiar uma certa candura, e que está em contradição com a sua enorme capacidade analítica, com a forma incisiva como a sua escrita escalpeliza, partindo de si próprio e da sua experiência pessoal, a sexualidade humana. Mais directa a que reveste a orientação homossexual, como é óbvio, mas suficientemente universal para interessar qualquer leitor que não tema rever-se através do reflexo que o outro (o outro literário neste caso) lhe devolve.

Assim acontece igualmente, e se calhar por maioria de razão, neste volume autobiográfico. Mesmo nos capítulos onde à partida essa carga seria menor, como os dedicados às figuras paterna e materna, mesmo aí o enfoque do seu relato e das suas reflexões é sempre, ou acaba quase sempre por ser, a sua sexualidade. Claro que referir que o grande tema da obra de EW é a (sua) sexualidade, não equivale a afirmar que isso equivale a uma perspectiva redutora dos seus livros. White é um grande escritor, particularmente um grande romancista, e nessa medida os seus livros remetem para a pluralidade da aventura humana e reflectem o homem no seu todo, investido de todas as suas dúvidas e perplexidades, de todos os seus medos e desejos, e fá-lo (trocadilho não intencional) com uma escrita elegante, riquíssima, cheia de uma ironia que quase roça o sarcasmo mas sem nunca perder o fio da ternura.

Mesmo para o leitor habituado à escrita de Edmund White, e para aquele que resiste a passagens mais fortes, há um capítulo neste livro que se evidencia e que quase constitui um livro à parte dentro do livro. Trata-se de My Master, no qual Edmund White relata, com uma candura que chega a ser dolorosa, a relação sado-masoquista que manteve, sendo já sexagenário, com um jovem actor de vinte e poucos anos, a única personagem do livro que não é identificada pelo nome mas apenas por uma inicial. E o que choca neste relato não é tanto o teor gráfico das descrições das práticas sexuais, mas sobretudo a forma desprovida de artifícios, de defesas, de cinismo, com que White relata o modo como se entregava, com tanto de obsessão como de abandono, àquilo que para o comum dos mortais constituirão as humilhações mais abjectas. E o que é absolutamente fabuloso é que saímos deste capítulo com uma noção engrandecida do autor, como se Edmund White, ao entregar-se por inteiro a essa relação e depois à decisão de escrever sobre ela, tenha, finalmente, e ao fim de uma vida atravessada por uma febril obsessão, atingido a sua redenção.

Para além de ser um dos meus escritores preferidos, Edmund White é um escritor muito importante na reflexão literária que tem feito sobre a condição homossexual. E é, tout court, um dos grandes romancistas da actualidade. É igualmente, apesar de ser em grande parte desconhecido entre nós, um escritor com um número razoável de títulos traduzidos e publicados em Portugal. É quase uma obrigação conhecê-lo.


Livros de Edmund White publicados em Portugal:
A Vida Privada de Um Rapaz, A Boy's Own Story, Dom Quixote
Um Belo Quarto Vazio, The Beautiful Room Is Empty, Dom Quixote
Sinfonia Despedida, The Farewell Symphony, Dom Quixote
O Homem Casado, The Married Man, Dom Quixote
Esfolado Vivo, Skinned Alive, Difel
Paris, Os Passeios de Um Flâneur, The Flaneur: A Stroll Through the Paradoxes of Paris, Asa
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