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the happening
rosas
innersmile
Do que tenho lido na net e nos jornais acerca do mais recente filme de M. Night Shyamalan, resultam essencialmente duas coisas: a primeira, é que depois do fracasso de Lady in the Water, a carreira (subentende-se que comercial) do realizador estava por um fio; a segunda é que The Happening acabou de o cortar.
Sempre achei que o pior dos filmes de M. Night tinha sido o sucesso de The Sixth Sense, ou mais propriamente do facto de o sucesso junto do grande público ter resultado essencialmente do facto de haver um twist no final que apanhava completamente de surpresa os espectadores. A verdade é que temos passado os filmes de M. Night sempre à espera de que o clime de suspense, de terror, de estranheza, resulte afinal de uma manobra que seja capaz de nos surpreender. Talvez o facto de o realizador se ter vindio gradualmente a libertar desse fardo explique o percurso descendente dos seus últimos filmes. Na minha opinião têm concentrado o trabalho de M. Night naquilo que mais me dá prazer neles, a sua imensa capacidade de contar uma história através de uma narrativa quase exclusivamente cinematográfica, com pouco recurso a palavras e a explicações, onde a informação relevante está toda contida nos recursos próprios da linguagem do cinema, no plano, no enquadramento, na sequência.
The Happening tem uma abertura assombrosa e arrepiante: de um momento para o outro, sem nada que anuncie ou ameace, as pessoas ficam como que paralisadas, depois confusas, e a seguir cometem suicídio. Não pode deixar de constituir uma citação explícita do 11 de Setembro, e da perplexidade absoluta dessas imagens do terror que se situam para lá de toda a compreensão, a cena dos operários a despenharem-se em voo desamparado do alto dos andaimes.
Depois deste princípio electrizante, o filme ganha uma falsa tranquilidade, tão enganadora e ambígua como todo o sentido da narrativa. A fuga da cidade não se faz naqueles ambientes cheios de tensão habituais nos filmes de acção (em especial nos filmes sobre catástrofes), onde há pânico e caos, mas faz-se inclusivamente com uma certa descontracção, as pessoas não parecem de facto fugir de uma ameaça, mas ao invés parece que vão antes passar um fim de semana para o campo.
Por outro lado este movimento para o campo, para os espaços abertos, para a natureza, ao invés de libertar as pessoas, como que as cerca, as limita, criando um progressivo ambiente de claustrofobia. Quanto maior é o espaço físico, mais apertado é o espaço vital das personagens. Ao mesmo tempo as condições de sobrevivência parecem depender do facto de os grupos de personagens serem cada vez mais pequenos, mas o progressivo isolamento das personagens torna-as simultaneamente mais frágeis e indefesas.
Como se vê, o filme evolui sempre de um modo muito geográfico, geométrico, em que aquilo que parece ser uma progressão, um caminho para a saída, uma evolução para a liberdade, é sempre um estreitar da ameaça, uma limitação do espaço vital, até se tornar, no meio da natureza, um quarto secreto e isolado do mundo exterior, e que outrora serviu de esconderijo para escravos foragidos.
Já é um lugar comum acusar M. Night Shyamalan de fazer filmes inspirados em Hitchcock e em Spielberg. Talvez seja por isso, por esses serem dois dos meus realizadores preferidos, que eu gosto tanto dos seus filmes. E se por um lado The Happening me pareceu o mais hitchcockiano dos seus filmes (pelo modo como o realizador deixa sempre ser a câmara a contar a história), por outro o filme fez-me lembrar imenso a versão de Spielberg de A Guerra dos Mundos.

À laia de curiosidade: quem é fã de M. Night Shyamalan sabe que o realizador, à semelhança de Hitchcock, mais uma vez, gosta de fazer uma aparição nos seus filmes. Mais uma vez isso acontece neste The Happening, mas dá-se um doce a quem identificar a presença de M. Night (mas não vale ir ver à net).
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