June 13th, 2008

rosas

as primárias americanas

No dia 22 de Janeiro do ano passado escrevi um post aqui no innersmile dando conta do facto só por si entusiasmante de haver na corrida para a candidatura democrata à presidência dos Estados Unidos uma mulher e um negro, pessoas de dois grupos de população habitualmente excluídos dos círculos mais elevados da política e do poder, não só na sociedade americana mas nas sociedades ocidentais em geral (já repararam que quase não há negros nos governos da Europa, mesmo em países muito multirraciais como a Inglaterra, a França ou a Holanda?)
Dei conta de que esse facto acontecia 'apenas' cinquenta anos depois de o movimento pelos direitos civis se ter desencadeado quando justamente uma mulher negra, Rosa Parks, se ter recusado a dar o seu lugar no autocarro a um passageiro branco. Curiosamente o jornalista Ferreira Fernandes, numa crónica recente creio que no DN, referia a distância entre esses dois movimentos, o da recusa de uma mulher em se deslocar para a traseira do autocarro e o de um negro chegar à primeiríssima fila da política mundial.

Tenho naturalmente a esperança de que Barack Obama venha a ser o próximo Presidente dos Estados Unidos, mas devo dizer que a minha candidatura preferida era a de Hillary Clinton. Desde logo pelo facto em si de ser mulher. Gosto muito de ver a política feita pelas mulheres, acho que as mulheres, talvez pelo facto de terem sido sempre, histórica e culturalmente, excluídas dos centros formais de poder político e remetidas para a esfera do íntimo e do particular, talvez por isso, dizia, as mulheres têm em geral um certo desapego que as faz concentrar naquilo que é essencial na função política em vez de desperdiçarem energia e recursos com os próprios processos de conquista e afirmação do poder. O caso recente da Manuela Ferreira Leite é disso um bom exemplo.
Outra razão porque preferia a candidatura de Hillary Clinton terá talvez a ver com o facto de eu ser muito conservador e acreditar que no exercício do poder político é fundamental conhecer bem o sistema, os seus senadores bem como os seus funcionários, e sobretudo saber exactamente quais são as regras e os limites. Não acredito no espírito de missão em política, porque acho que só vai para a política quem tem uma ambição enorme e uma grande capacidade de 'atropelar' os outros, sejam os rivais ou os inimigos, sejam os correligionários ou mesmo os eleitores. Um político tem de se sentir sempre um pouco acima dos outros não hesitando por isso em os 'destruir' quando isso é preciso. Em Portugal o melhor exemplo disto é o Mário Soares.
Contra Clinton tinha sobretudo o facto de ser a mulher de um ex-presidente. Soa-me demasiado a um episódio do Dallas ou do Dinasty (alguém se lembra?). Não gosto de oligarquias, de famílias políticas; há vinte anos que na presidência dos EUA estão os Bush e os Clinton, e se Hillary ganhasse eram mais dez anos! Caramba, há monarquias que duram menos…
Tal como não acredito muito no espírito de missão em política, tenho muito medo do aventureirismo, e tenho de confessar que é a isso que me soa esta candidatura de Barack Obama. A sua vitória nas primárias foi feita sobretudo com slogans, com ideias e conceitos muito esvaziados de conteúdo político, pelo menos no sentido ideológico do termo, ou seja enquanto doutrina de um determinado programa de poder.
A vitória de Obama repousa muito no facto de o eleitorado ter acreditado numa proposta de mudança e na capacidade de as pessoas (ou seja o próprio eleitorado) operarem a mudança. Enunciada tal como o foi por Obama parece que estamos a falar da utopia realizável, e eu percebo, e não sou insensível ao carácter irresistível desse apelo.
Mas esta candidatura de Barack Obama faz-me lembrar demasiado a de Lula da Silva, quando venceu as eleições e se tornou presidente do Brasil. Todos nos lembramos como foi, até porque foi há muito pouco tempo. Todos nos lembramos de como uma vaga de esperança varreu literalmente o Brasil, e de como o discurso de Lula, ele que era um ex-sindicalista e um homem clara e assumidamente de esquerda, se despiu e esvaziou de conteúdo ideológico precisamente para pôr no seu lugar o discurso da utopia. E todos nos lembramos de enorme balde de água gelada que o Brasil começou a sentir quase no dia imediato ao da eleição.