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uma segunda juventude
rosas
innersmile
Fui ao cinema rever Youth Without Youth, de Francis Ford Coppola. Gosto muito de rever filmes, sobretudo no cinema (eu sei que é mania, mas em dvd nunca tenho bem a sensação de estar a ver cinema, mas apenas a ver filmes) por um lado porque não tenho a antecipação a distrair-me e por outro porque consigo descolar e não ficar completamente embrenhado no doce embalo da narrativa. Rever um filme permite-nos olhar para ele com um pouco mais de distância, desconstruí-lo um pouco e, quando é caso disso, passar a gostar ainda mais porque ficamos a perceber melhor as razões do nosso gosto.
E foi isso que aconteceu com o filme de Coppola. Reforcei a ideia que já tinha de que o filme carece de coerência narrativa, ou melhor de um certo sentido de economia que lhe permita avançar sem se perder em derivas, em circunvalações que a maior parte das vezes não têm saída. Mas talvez sejam essas derivas que dão ao filme um tom esquivo, fugidio, que contrasta muito bem com a mise-en-scéne rigorosa de Coppola.
Trata-se de um filme muito intelectual, não no sentido de ser difícil e complexo (e muito menos árido e chato), mas no de que lida mais com elaborações filosóficas do que com sentimentos. Não sei se tanto por procurar estabelecer uma determinada epistemologia (passe o paradoxo, num filme que encena a reencarnação, o rejuvenescimento, o doppelgaenger, etc), mas porque, por muito improvável que pareça, é um filme que tenta encontrar um certa racionalidade, seja do amor seja do tempo.
Aliás o tempo é uma das palavras-chave do filme e nesse aspecto, como me relembrou a amiga que foi comigo revê-lo, aproxima-se muito a outro filme de Coppola, na realidade aquele que é considerado um dos seus clássicos, ou um dos seus maiores sucessos (por contraste com a forma como foi recebido esta YWY); falo obviamente de Dracula, que é igualmente um filme sobre vampirismo, ou seja sobre o tempo.
Mas se o filme de Coppola convida o espectador a um jogo estimulante, é ainda na capacidade do realizador da saga O Padrinho de criar uma beleza formal, rigorosa, mas sempre um pouco excessiva e operática, que reside o grande encanto daquele que é, para mim, um dos grandes filmes do ano.

edit: Algumas horas depois de ter escrito o texto acima, e ao relê-lo agora, parece-me que faltam dois aspectos. O primeiro é que o filme parece sempre deter um segredo, saber alguma coisa essencial que nós intuimos mas não conseguimos definir, e que esse é outro dos factores que o tornam muito sedutor. Outro aspecto fascinante é o tom um pouco anacrónico do filme; não exactamente por ser um filme de época, mas porque consegue criar um clima (cá está outra vez a palavra) intelectual que corresponde a um determinado período, e que tem a ver com uma certa indefinição entre ciência e crença, em que a ciência como que ainda tentava dar uma certa caução a uma série de práticas que tinham apenas a ver com aquilo que se chamava o paranormal, fenómenos que são do domínio do espiritual mas a que se pretendia atribuir um cunho científico.
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o dilúvio
rosas
innersmile
Ontem tive de ver televisão entre as 19h30 e as 21h00 e fiquei completamente horrorizado. Como é possível que o país, ou talvez melhor falar em nação, dado que tem um carácter mais mental e colectivo, como é possível que a nação pareça tão descontrolada, com um ataque de euforia totalmente insano, só e apenas porque a selecção de futebol (caramba, a selecção de futebol, só isso) ia embarcar num avião com destino à Suiça!?
Claro, nada que não se tenha já visto anteriormente, mas causa sempre uma impressão assustadora ver uma nação a depositar todo o seu investimento emocional numa coisa tão prosaica e tão improvável como é um desafio de futebol (ou três, ou seis, na melhor das hipóteses). Pode parecer que estou a exagerar mas muito do que somos enquanto nação está espelhado neste tipo de fenómenos, e eles explicam em grande parte, ou pelo menos dão evidência das razões porque somos um país adiado e sem rumo.
Apesar de estar cheio de vontade de ver os jogos e como é óbvio de torcer pela selecção nacional, isto é tudo tão arrepiante que quase dá vontade de que a selecção não passe da 1ª fase a ver se esta gente volta à terra.

Foi tal o nojo com o espectáculo televisivo da selecção que assim que pude apaguei o televisor e nunca mais me aproximei sequer do comando. Conclusão, nunca mais me lembrei dos Contemporâneos (e dizem-me que o episódio de ontem foi hilariante), nem da Câmara Clara, que ontem era sobre Le Corbusier, nem do documentário de Sidney Pollack sobre o arquitecto Frank Gehry, e que foi o seu último trabalho como realizador.
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