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pollack: shoulder-high we bring you home
rosas
innersmile
«É uma das cenas mais bonitas do filme, num filme que está carregado de beleza e transcendência. É o funeral de Denys Finch Hatton na cumeada de um monte, e Karen Blixen começa a ler, junto à campa, extractos de um poema.
No final, acrescenta:
"Now take back the soul of Denys George Finch Hatton, whom You have shared with us. He brought us joy...we loved him well.
He was not ours.
He was not mine."

E depois afasta-se, virando as costas ao féretro e voltando-se para a infinita paisagem africana, que ela aprendera a amar também pelos olhos, e pelas asas, de Denys.
Mas se hoje invoco esse filme, e particularmente essa cena, é porque só agora, tantos anos depois de o ter visto pela primeira vez, e graças às potencialidades do dvd e da internet, consegui aceder ao poema que Karen Blixen lê durante essa cena. É de A. E. Housman, intitula-se 'To an Athlete Dying Young', e é assim:

The time you won your town the race
We chaired you through the market-place;
Man and boy stood cheering by,
And home we brought you shoulder-high.

To-day, the road all runners come,
Shoulder-high we bring you home,
And set you at your threshold down,
Townsman of a stiller town.

Smart lad, to slip betimes away
From fields where glory does not stay
And early though the laurel grows
It withers quicker than the rose.

Eyes the shady night has shut
Cannot see the record cut,
And silence sounds no worse than cheers
After earth has stopped the ears:

Now you will not swell the rout
Of lads that wore their honours out,
Runners whom renown outran
And the name died before the man.

So set, before its echoes fade,
The fleet foot on the sill of shade,
And hold to the low lintel up
The still-defended challenge-cup.

And round that early-laurelled head
Will flock to gaze the strengthless dead,
And find unwithered on its curls
The garland briefer than a girl's.
»



Este foi o teor de uma entrada que eu pus aqui no innersmile no dia 29 de Abril de 2003!
Agora graças ao youtube podemos visionar um clip com esta sequência:



O pretexto para ‘rever’ Blixen e Denys, e particularmente esta que é uma das mais belas elegias em cinema, é natural e infelizmente, a morte do seu criador, Sydney Pollack. Se mais não fosse, bastava Out of Africa para pôr o nome de Pollack no panteão dos grandes realizadores de Hollywood.

Mas Pollack foi mais do que isso. Enquanto realizador, assinou pelo menos mais uma mão cheia de filmes assinaláveis, alguns deles que já mereceram o estatuto de clássicos, como Tootsie, Os Três Dias do Condor ou The Way We Were. A propósito, o último filme de Sydney Pollack que vi nos cinemas foi The Interpreter, com a Nicole Kidman e o Sean Penn, e que logo a abrir tinha cenas filmadas em Maputo.
Mas para além de realizador, e como testemunho de uma vida consagrada de facto ao cinema, Pollack foi ainda um produtor emérito (ainda recentemente produziu Michael Clayton ou os filmes de Anthony Minghella, também recentemente falecido) e não perdia uma oportunidade para fazer uma perninha de actor (no mesmo Michael Clayton ou nos Sopranos, por exemplo, ou ainda em Eyes Wide Shut, o derradeiro filme de Kubrick).

Como com a morte do seu autor não perdemos as obras, os filmes de Pollack aí ficam para nosso gáudio e ilustração. A perda de Pollack reflecte-se sobretudo num determinado cinema norte-americano, politicamente empenhado, liberal, atento ao mundo e aos dramas das pessoas, sendo simultaneamente um cinema narrativa e tecnicamente muito sóbrio e escorreito, inscrevendo-se desse modo nos padrões clássicos do melodrama tal como foi codificado pela indústria de Hollywood.