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a matança
rosas
innersmile
Se isto parece ter acontecido no século passado, é porque de facto aconteceu. E estava o século ainda longe de acabar, eram ainda os anos 70, do meio para o fim. Os guinchos do bicho chegaram à sala onde eu estava, sentado à braseira, a olhar para um televisor de imagem a preto e branco.

Saí de casa e subi para o Largo do Castelo, que não tinha razões visíveis ou memoráveis para se chamar assim. Quase ao cimo da rua, antes de abrir para o largo, quase em frente à tasca (também havia um café, mas era lá em cima, do outro lado, junto à entrada de quem vem pela estrada velha, ao pé da eira, 'dageirage', como lá diziam), na vasta garagem atrás do portão de ferro da casa dos Tenreiros (invento o nome, não me recordo do verdadeiro), matava-se o porco.

Um espectáculo medonho e imundo, com o bicho a esvair-se em sangue que corria para bacias de plástico, os guinchos dos outros bácoros a denunciarem o irracional medo da morte, mas era igualmente o lugar mais quente da aldeia. O sangue fervia a correr do corpo do bicho e a cozer em enormes panelas de alumínio. Os cães e o seu bafo a um tempo tristonho e esfomeado. As chamas do maçarico a chamuscarem a pele do porco, empestando o ar com um odor enjoativo e horrífico. As crianças em algazarra, atrás dos cães e dos alguidares. As mulheres azafamadas, de mangas arregaçadas até ao cotovelo e as faces ruborescidas. E os homens, em camisa interior e a escorrer sangue pelos antebraços nus, a desmancharem o bicho.

É, estava-se em Janeiro, e ultrapassado o horror do sangue e da porcaria e a estonteante e nauseabunda anarquia, a garagem onde se matava o porco era o lugar mais quente da aldeia, de toda a Beira Alta e até de toda esta parte do mundo que me separava da minha mãe.