?

Log in

No account? Create an account

notas
magical
innersmile
notas para futuros posts

1. como falar de My Blueberry Nights? parece-me de alguma maneira um filme mais fácil do que os restantes de Wong Kar Wai, nomeadamente os da dupla In The Mood for Love e 2046. mas isso significa necessariamente que seja pior? não acho. acho um filme muito lírico, e que, como nos outros filmes do autor, procura as marcas distintivas da pulsão (ou mesmo da possibilidade) amorosa na forma: na arquitectura, na geografia, nos rostos, no decor, na música, na fotografia. Ou seja, no enquadramento, no plano, na sequência. e isso é cinema.

2. o innersmile passou por uma crise, senti algumas vezes vontade de o fechar por achar que tinha deixado de fazer sentido, mas como sempre foi só questão de me sentar e esperar que a vontade passasse. volto a ter vontade de escrever a torto e a direito.

3. falar da primavera de 1984, do hospital de Londres, de Douglas e do Manchester United. fiquei contente por ter ganho a Champions, mas foi um jogo fabuloso, ambas as equipas tinham merecido vencer. dizer que sou fã do carlos queirós.

4. os dias vividos sob o signo do livro de joan didion, ou seja, do sentimento de perda, do sofrimento, da dor. reconhecer no livro as minhas maneiras de lidar com a dor, e sobretudo os meus exercícios de simulação daquelas perdas que me aterrorizam. não estou propriamente deprimido, acho eu, mas estou completamente dominado pelo medo de que vou perder as pessoas que mais amo e como é que vai ser a vida depois disso, como é que vou conseguir lidar com a necessidade de arrumar as vidas, encerradas para mudança de ramo, liquidação total. e com a minha própria morte. o que vai acontecer às minhas coisas depois de eu morrer, como é que esta casa se vai esvaziar?

o vazio
magical
innersmile


"A dor acaba por ser um lugar que nenhum de nós conhece senão quando chegamos lá. Prevemos (sabemos) que alguém que nos é querido pode morrer, mas não olhamos para lá dos poucos dias ou semanas que se seguem imediatamente a essa morte imaginada. Desconstruímos a natureza desses mesmos escassos dias ou semanas. Podemos esperar, se a morte não for repentina, sentir choque. Não esperamos que esse choque seja obliterante e desorganizador tanto do corpo como da mente. Podemos esperar sentirmo-nos prostrados, inconsoláveis, enlouquecidos com a perda. Não esperamos ficar literalmente doidos, pessoas calmas que acreditam que o marido está prestes a voltar e vai precisar de sapatos. Na versão da dor por nós imaginada, o modelo será a «cura». Prevalecerá um certo movimento em frente. Os piores dias serão os primeiros. Imaginamos que o momento que mais severamente nos porá à prova será o funeral, após o qual ocorrerá aquela hipotética cura. Quando prevemos o funeral, perguntamo-nos se seremos capazes de «passar por isso», de nos levantarmos para a ocasião, de exibir a «força» que invariavelmente é apontada como a reacção correcta à morte. Prevemos que temos de couraçar-nos para o momento: serei capaz de cumprimentar as pessoas, serei capaz de sair de cena, serei capaz, ao menos, de me vestir nesse dia? Não temos maneira de saber que o problema não é esse. Não temos maneira de saber que o funeral em si será anódino, uma espécie de regressão sob narcose, durante o qual no envolvemos no carinho dos outros e na gravidade e significado da ocasião. Também não podemos conhecer antecipadamente ao facto (e aqui reside o âmago da diferença entre a dor conforme a imaginamos e a dor como ela é) a interminável ausência que se segue, o vazio, o verdadeiro oposto de significado, a implacável sucessão de momentos durante os quais nos confrontamos com a experiência de ausência de significado."

- Joan Didion, A ANO DO PENSAMENTO MÁGICO (excerto)