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estação seca . 16/25
a_seco
innersmile
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Vai haver um dia em que te vais confrontar com a verdade. A máscara vai cair e a sombra que te embeleza o rosto vai ser cruel como a primeira luz de uma manhã de verão. Vai haver um dia em que não te vão sobrar as desculpas e vai faltar o pano com que cobres as chagas. Vai haver um dia em que o teu corpo inábil e desesperado vai finalmente aceitar o desastre e tu vais penar à chuva e ao frio e ao vento da verdade com que te tentas iludir. Vai haver um dia em que os cães vadios te vão ladrar às canelas e tu vais pensar que afinal o desespero não mora do lado de fora, mas está colado por dentro, ao interior da tua pele, e te corre pelos subterrâneos das veias e te mina os ossos como a soda cáustica ou como o tempo. Vai haver um dia em que não te vais conseguir mirar ao espelho, em que o rosto do teu reflexo vai ser agonizante como uma camisa rasgada, e ramos queimados e ressequidos, furando a fétida pele, te nascem do rosto e dos membros. Vai haver um dia em que vais desistir, dizer basta, cansado deitar a cabeça no teu próprio colo vazio e dormir sem conseguir adormecer. Vai haver um dia em que vais subir ofegante a escada da tua casa, na mão um saco plástico molhado com o pão nosso de cada noite em claro, e te vai arder no rosto a certeza de que se cumpriu a oca promessa da tua vida, de que finalmente chegaste ao vazio que sempre te estava destinado, que não vai haver nem mais um dia em que possas mais fugir da tua derrota.
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torcato sepúlveda
rosas
innersmile
Há nomes que ficam connosco, que ficam ligados à nossa história, que passam a fazer parte de nós. Nomes de escritores, de cineastas, nomes mais anónimos, que não nos dizem rigorosamente nada de um ponto de vista pessoal, mas que se tornam familiares porque de algum modo estão ligados a horas de prazer, de desfrute, de deleite, ligados à nossa formação e ao nosso crescimento.
Nomes, por exemplo, de jornalistas. De tipos mais ou menos anónimos mas que, à custa de tantos os lermos no rodapé de um texto de jornal acabam por se tornar importantes, mesmo essenciais.
Nunca conheci o jornalista Torcato Sepúlveda, não sabia rigorosamente nada acerca dele, nada acerca da sua pessoa nem sequer do que estava a fazer profissionalmente neste momento. Só lhe vi o rosto agora, porque apareceu aí nuns blogues e talvez no jornal que leio habitualmente, o Público. E agora o nome do jornalista voltou porque desta vez é ele a notícia, ou antes a sua morte.
Aconteceu-me exactamente o mesmo que me tinha acontecido aqui há uns tempos quando morreu outro nome ligado à história do Público, o do crítico teatral Manuel João Gomes, que eu nem sabia sequer que tinha sido casado com a Luiza Neto Jorge. De repente lemos no jornal a notícia da morte de alguém cujo nome nos diz alguma coisa, e sentimo-nos mais empobrecidos, mais sós.
Leio o Público desde o primeiro número, comprado às sete da manhã num quiosque da estação de comboios de Rio de Mouro de uma dia qualquer (uma terça-feira?) de 1990 (Março?), e logo desde o início uma das razões porque o jornal me prendeu foi pela atenção que dava à cultura, nomeadamente através do suplemento Leituras, inteiramente dedicado à literatura e aos livros. Mais tarde o suplemento foi suspenso e regressou, depois, com o nome Mil Folhas, que é, creio eu, um nome já mítico no jornalismo cultural português.
Pois bem, foi aí, desde o início, no Leituras, que o nome de Torcato Sepúlveda se me foi tornando familiar, esse nome que anonimamente ia aparecendo no fundo do texto do artigo. E se o jornalista tem por si, mas também contra si, o anonimato e o efémero da página do jornal, tem também, quando é grande, essa capacidade de saltar do anónimo rodapé e se fixar na memória do leitor.