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o ano do pensamento mágico
magical
innersmile

Estou a ler de forma compulsiva o livro O Ano do Pensamento Mágico, de Joan Didion. Em Dezembro de 2003, no dia 30, quando jantavam depois de terem visitado a filha que estava em coma num hospital, o marido de Joan, John, morreu fulminado por um ataque cardíaco. O que se segue é um relato assombroso de como Joan foi lidando com a dor, o sofrimento, o sentimento de perda.
A questão é que não é um livro sentimentalista (e rigorosamente nada lamechas), não tem uma ponta de queixume, e está nos antípodas dos livros de auto-ajuda ou daqueles relatos autobiográficos cheios de boas intenções, de auto-comiseração e, normalmente, de frases belas e ocas. O livro está escrito de forma rigorosa, como se a autora se sentasse à mesa e começasse a montar um puzzle feito das peças do seu sofrimento, ou como se começasse a desenhar um mapa ou um gráfico que lhe permitisse pôr em perspectiva, racionalizar, dar um sentido ao que foi um ano de dor e perda.
O livro fala comigo, há tantas passagens em que tenho de parar para reflectir, quase para dialogar com a autora, ou que me põem a pensar sobre mim, sobre a minha maneira de reagir a determinadas situações, por vezes são pequeníssimos pormenores em que nos revemos. Tantas vezes começo a elaborar de cabeça um texto para pôr aqui, mas a compulsividade da leitura é mais forte, e não me apetece nada parar para fazer aquele corte mental que sempre é necessário quando nos dispomos a começar a escrever. Nem consigo parar de ler para ir buscar um lápis para sublinhar alguns trechos que me tocam mais.
É curioso porque de vez em quando vem um livro que nos arrebata, que mexe connosco. Não sei se chega a mudar as nossas vidas, mas acrescenta-lhes de certeza alguma coisa, ou pelo menos ilumina ou dá mais transparência à nossa alma, ao nosso espírito, à nossa mente. São experiências de leitura muito intensas, e que ficam sempre connosco. Recordo sempre não o direi o momento, o lugar preciso no tempo, mas a 'frame of mind', o lugar emocional que um determinado livro ocupou. Acho que é isto que me vai acontecer com este livro da Joan Didion, vão ficar sempre inscritos na minha memória estes dias, ou melhor este estado de espírito em que ando continuamente por causa dele, mesmo nos momentos em que não o posso estar a ler.

A edição portuguesa é da Gótica e é já de 2006. A capa foi muito mal escolhida, não tem nada a ver com a sobriedade da capa das outras edições, aliás até é a capa de um outro livro da Joan Didion, que coisa absurda.