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o que será
rosas
innersmile
estou a ouvir o disco mais recente do trio de brad mehldau, um duplo gravado ao vivo no village vanguard, um clube de jazz em nova iorque cujas escadas desci numa noite feérica e só me lembro da cor vermelha e ao fundo uma sala escura, e então brad mehldau e os seus companheiros larry grenadier e jeff ballard, o primeiro um velho companheiro dos discos em trio de mehldau, começam a tocar uma versão de o que será do chico buarque, que estou agora a ouvir novamente enquanto escrevo isto, e então eu parei de fazer o que estava a fazer, que era ler, e comecei a cantar baixinho ao som da melodia tocada em pianíssimo por brad mehldau o que será que será que andam suspirando pelas alcovas, mas de repente paro e percebo que a voz que oiço não é a de chico buarque mas sim a de milton nascimento, bituca, carrego no botão para regressar ao início da faixa e, sim, é de milton nascimento a voz que ouço a cantar no pianíssimo de brad mehldau:

O que será que me dá
Que me engole por dentro
O que será que me dá?
Que brota à flor da pele
O que será que me dá?
E que me sobe às faces
E me faz corar
E que me salta aos olhos
A me atraiçoar
E que me aperta o peito
E me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo
Me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá.
O que não tem remédio, nem nunca terá.
O que não tem receita.
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akhenaton, o rei herege
rosas
innersmile


Akhenaton é um dos mais intrigantes faraós do antigo Egipto. Lembro-me quando fui ao museu do Cairo de achar estranhas as suas estátuas, tão diferentes das dos restantes faraós, muito alongadas. Esta maneira diferente de representar o faraó acompanha a estranha relevância do seu reinado, sobretudo em função do facto de Akhenaton ter recusado o culto a Amon como maior divindade do Egipto, substituindo-o por Aton, o deus do sol, construindo por isso uma nova capital dedicada ao novo deus, Akhetaton, para onde se mudou abandonando Tebas à conspiração dos sacerdotes.
Naguib Mahfouz, escritor egípcio, único prémio Nobel da cultura árabe, dedica ao faraó o livro Akhetaton, o Rei Herege, estruturando o livro de forma muito original, numa sequência de entrevistas (14, creio) que Miriamon, um jovem curioso da história, leva a efeito com várias personagens que conheceram e privaram com o faraó, culminando com a entrevista a Nefertiti, a rainha viúva a quem muitos apontam a culpa pelo perturbador reinado de Akhenaton.
Ao oferecer vários prismas sobre o faraó, desde os seus mais ferozes críticos e antagonistas, como o sacerdote de Amon, até aos seus mais fervorosos seguidores, passando por familiares, conselheiros, comandantes, etc., Mahfouz não dá pistas, não resolve questões, não deslinda soluções, mas como que ilumina o mistério, enunciando-o e quase como que o desconstruindo, não para nos ajudar a resolvê-lo, mas para nos fazer entendê-lo enquanto mistério.
E esse mistério, pelo menos aquele centraliza o romance de Naguib Mahfouz, prende-se com o grande confronto entre as religiões politeístas e as monoteístas, antecipando o surgimento da primeira das religiões de um único deus em dois ou três séculos. Akhenaton seria assim uma espécie de profeta do judaísmo, vítima do seu visionarismo, e sobretudo da radical revolução que o monoteísmo significaria para uma civilização cujos fundamentos assentavam num conceito politeísta de religião.
Apesar de NM se esforçar por nos colocar no centro de um conflito em que um deus único para uns era sinal de amor e alegria eterna e para outros o fim do mundo tal como o conheciam, não deixamos de ter a leve sensação de que de algum modo a simpatia do escritor se inclina mais para a tradição politeísta que enformava a civilização egípcia.
Um aspecto que o livro exprime muito bem tem a ver com o aspecto físico de Akhenaton. Como referi no início, as estátuas que o representam são muito características e diferentes das dos restantes faraós. No romance, o modo como os diversos intervenientes viam a sua figura tinha muito a ver com o seu posicionamento face à sua crença. Para os seus detractores, o faraó tinha um aspecto efeminado, que o tornava um fraco, um excêntrico, quase um monstro. Para os seguidores, ao contrário, a sua fragilidade física era sinónimo de uma enorme força espiritual.

Depois da sua morte, os sacerdotes tudo fizeram para apagar a memória de Akhenaton. A tal ponto que a sua existência apenas foi conhecida em finais do século XIX. E isto não obstante a figura do faraó, e as perturbações causadas no seu reinado, ser muito impressiva. Uma das coisas que se refere é que, apesar de casado com a bela Nefertite, Akhenaton mantinha uma relação incestuosa com a sua mãe, e há muitos estudiosos que defendem que foi a figura do faraó que esteve na origem do mito grego de Édipo e Jocasta.