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innersmile
Concerto da Jacinta ontem no Gil Vicente, a apresentar, em tour, o disco Convexo (A música de Zeca Afonso). O concerto segue o alinhamento do disco, e o formato é o mesmo, em trio, com Rui Caetano no piano e Bruno Pedroso na bateria. Comprei o cd aqui há uns meses, e tinha achado o projecto interessante, ainda que não absolutamente distintivo em termos de releitura da música de José Afonso. Mas Jacinta é uma excelente cantora, e o formato de trio, com piano e bateria é estimulante.
O concerto de certa forma confirmou essas impressões do cd, nomeadamente quanto à leitura um pouco lisa das canções do JA. Claro que é sempre preferível manter as versões o mais perto possível do original a fazer variações muito elaboradas e totalmente desadequadas, algumas mesmo estapafúrdias (adoro esta palavra). Mas há outros projectos, como por exemplo os Coupplecoffe que já provaram que é possível fazer leituras originais das canções do Zeca.
No entanto, nada disso faz perigar o jazz de Jacinta, a sua voz quente envolvente e o modo seguro como ela domina a melodia, o que torna o seu scat sempre muito eficiente, nada daqueles estribilhos exibicionistas que tantas vezes vemos. Os músicos excelentes, com aproximações muito discretas aos respectivos instrumentos, principalmente o piano de Rui Caetano. Tal como no disco, o que mais me agradou (para além da belíssima voz da cantora, é óbvio) foi o funcionamento do trio, a forma como foi aproveitada, e desenvolvida, a interacção entre os três elementos.
Em suma, foi um belo concerto, que nos devolveu um prazer muito musical de escutar algumas das mais belas canções do José Afonso.
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os livros que importam
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innersmile
Seguindo um link do blog Cadeirão Voltaire li um artigo belíssimo de Alberto Manguel publicado na edição de ontem do New York Times, intitulado A 30,000-Volume Window on the World, e no qual o autor conta a história das bibliotecas que foi constituindo ao longo da vida, e da quem tem hoje e que esteve na origem da decisão da compra da sua actual casa, no Sul de França. Manguel, que eu não conhecia, é um autor de ficção, traduções, e sobretudo de livros de não-ficção sobre, precisamente os livros e a literatura. É um argentino de naturalidade canadiana, já viveu em muitos lugares do mundo, e tem uma história de vida interessante, da qual consta, quando era um adolescente e funcionário de uma livraria em Buenos Aires, a leitura de livros em voz alta para Jorge Luís Borges, experiência que durou de 1964 a 1968. Com uma história destas para contar não eram precisas mais credenciais, mas vale a pena espreitar o site de Alberto Manguel em www.albertomanguel.com.

O artigo do NYT é uma delícia, daqueles por onde escorre não tanto o amor abstracto pela literatura, mas o prazer imenso e intenso que são os próprios livros. Só não gostei, no artigo, da referência a American Psycho, o polémico livro de Brett Easton Ellis, que, segundo conta, foi o único livro que Manguel retirou da sua biblioteca, por achar que ele infectava as estantes com as suas descrições de dor inflingida deliberadamente, deitando-o no lixo para evitar que outra pessoa lesse um livro de que ele não gostava. Na mesma passagem do artigo Manguel diz que não empresta livros, e que cada vez que alguém lhe pede um livro emprestado ele prefere comprar um exemplar para oferecer a essa pessoa. Também nisto discordo de Manguel, não me importo nada de emprestar livros, até me dá um certo gozo, e se por acaso alguém não me devolve um livro que emprestei e que quero reler ou apenas ter, compro outro exemplar para mim.

Mas a razão porque me lembrei de referir aqui este artigo de Alberto Manguel, para além de chamar a atenção para um artigo tão bonito sobre um tema que me agrada tanto, foi basicamente para poder transcrever trecho:

«The library of my adolescence — a time when the simultaneous discoveries of sex and the injustice of the world called for words to name the frightening stirrings in my body and in my head — contained almost every book that still matters to me today; of the thousands that have been added since, few are essential.»

Acho isto fabuloso, e partilho quase em absoluto. Enfim sou capaz de me lembrar de alguns livros que me são essenciais e que li já na idade adulta, mas não há dúvida de que a maior parte das leituras essenciais, aquelas que ficam, foram as feitas na adolescência, sobretudo no final da adolescência ou pelo menos nesses anos em que ainda estamos a aprender (por vezes da maneira mais dura) o que é isso de sermos adultos.


[A biblioteca da minha adolescência – um tempo em que a descoberta simultânea do sexo e das injustiças do mundo pedia palavras capazes de nomear os assustadores movimentos no meu corpo e na minha cabeça – continha quase todos os livros que ainda hoje me são importantes; dos milhares que entretanto lhe fui adicionando, poucos são essenciais.]