May 16th, 2008

rosas

jacinta

Concerto da Jacinta ontem no Gil Vicente, a apresentar, em tour, o disco Convexo (A música de Zeca Afonso). O concerto segue o alinhamento do disco, e o formato é o mesmo, em trio, com Rui Caetano no piano e Bruno Pedroso na bateria. Comprei o cd aqui há uns meses, e tinha achado o projecto interessante, ainda que não absolutamente distintivo em termos de releitura da música de José Afonso. Mas Jacinta é uma excelente cantora, e o formato de trio, com piano e bateria é estimulante.
O concerto de certa forma confirmou essas impressões do cd, nomeadamente quanto à leitura um pouco lisa das canções do JA. Claro que é sempre preferível manter as versões o mais perto possível do original a fazer variações muito elaboradas e totalmente desadequadas, algumas mesmo estapafúrdias (adoro esta palavra). Mas há outros projectos, como por exemplo os Coupplecoffe que já provaram que é possível fazer leituras originais das canções do Zeca.
No entanto, nada disso faz perigar o jazz de Jacinta, a sua voz quente envolvente e o modo seguro como ela domina a melodia, o que torna o seu scat sempre muito eficiente, nada daqueles estribilhos exibicionistas que tantas vezes vemos. Os músicos excelentes, com aproximações muito discretas aos respectivos instrumentos, principalmente o piano de Rui Caetano. Tal como no disco, o que mais me agradou (para além da belíssima voz da cantora, é óbvio) foi o funcionamento do trio, a forma como foi aproveitada, e desenvolvida, a interacção entre os três elementos.
Em suma, foi um belo concerto, que nos devolveu um prazer muito musical de escutar algumas das mais belas canções do José Afonso.
rosas

os livros que importam

Seguindo um link do blog Cadeirão Voltaire li um artigo belíssimo de Alberto Manguel publicado na edição de ontem do New York Times, intitulado A 30,000-Volume Window on the World, e no qual o autor conta a história das bibliotecas que foi constituindo ao longo da vida, e da quem tem hoje e que esteve na origem da decisão da compra da sua actual casa, no Sul de França. Manguel, que eu não conhecia, é um autor de ficção, traduções, e sobretudo de livros de não-ficção sobre, precisamente os livros e a literatura. É um argentino de naturalidade canadiana, já viveu em muitos lugares do mundo, e tem uma história de vida interessante, da qual consta, quando era um adolescente e funcionário de uma livraria em Buenos Aires, a leitura de livros em voz alta para Jorge Luís Borges, experiência que durou de 1964 a 1968. Com uma história destas para contar não eram precisas mais credenciais, mas vale a pena espreitar o site de Alberto Manguel em www.albertomanguel.com.

O artigo do NYT é uma delícia, daqueles por onde escorre não tanto o amor abstracto pela literatura, mas o prazer imenso e intenso que são os próprios livros. Só não gostei, no artigo, da referência a American Psycho, o polémico livro de Brett Easton Ellis, que, segundo conta, foi o único livro que Manguel retirou da sua biblioteca, por achar que ele infectava as estantes com as suas descrições de dor inflingida deliberadamente, deitando-o no lixo para evitar que outra pessoa lesse um livro de que ele não gostava. Na mesma passagem do artigo Manguel diz que não empresta livros, e que cada vez que alguém lhe pede um livro emprestado ele prefere comprar um exemplar para oferecer a essa pessoa. Também nisto discordo de Manguel, não me importo nada de emprestar livros, até me dá um certo gozo, e se por acaso alguém não me devolve um livro que emprestei e que quero reler ou apenas ter, compro outro exemplar para mim.

Mas a razão porque me lembrei de referir aqui este artigo de Alberto Manguel, para além de chamar a atenção para um artigo tão bonito sobre um tema que me agrada tanto, foi basicamente para poder transcrever trecho:

«The library of my adolescence — a time when the simultaneous discoveries of sex and the injustice of the world called for words to name the frightening stirrings in my body and in my head — contained almost every book that still matters to me today; of the thousands that have been added since, few are essential.»

Acho isto fabuloso, e partilho quase em absoluto. Enfim sou capaz de me lembrar de alguns livros que me são essenciais e que li já na idade adulta, mas não há dúvida de que a maior parte das leituras essenciais, aquelas que ficam, foram as feitas na adolescência, sobretudo no final da adolescência ou pelo menos nesses anos em que ainda estamos a aprender (por vezes da maneira mais dura) o que é isso de sermos adultos.


[A biblioteca da minha adolescência – um tempo em que a descoberta simultânea do sexo e das injustiças do mundo pedia palavras capazes de nomear os assustadores movimentos no meu corpo e na minha cabeça – continha quase todos os livros que ainda hoje me são importantes; dos milhares que entretanto lhe fui adicionando, poucos são essenciais.]