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Terminei há pouco a leitura de uma breve biografia do actor João Villaret, da autoria de António Carlos Carvalho. Trata-se sobretudo de um levantamento, que parece exaustivo, do trabalho de Villaret, como actor e declamador, inventariando peças e recitais, em Portugal, e nos restantes pontos do globo onde o actor levou a sua arte, o Brasil, a Argentina e as na altura colónias portuguesas em África. O livro reúne ainda extractos de entrevistas e outros textos de Villaret, notas críticas e testemunhos de colegas e amigos.
Infelizmente para se tratar de uma verdadeira biografia falta ao livro a própria vida do biografado. O livro quase nada nos diz da vida de Villaret, nem sequer ensaia um retrato psicológico um pouco mais denso e profundo, que ultrapasse a superfície do elogio e do adjectivo grandiloquente. Ficamos mesmo sem conhecer a pessoa de Villaret, e se não fosse uma brevíssima referência no testemunho do acto Rui de Carvalho, passaria completamente em branco o facto de não apenas Villaret ter sido homossexual, mas sobretudo o de ter vivido essa condição de forma mais ou menos assumida, numa época em tal era mais do que socialmente reprimido.

Gosto muito de ouvir o João Villaret dizer poemas e devo-lhe, acho eu, gostar de ler poemas. Como acontece com muitas outras coisas (por exemplo com as línguas) o meu gosto pela poesia é sobretudo musical, gosto do som, da música das palavras, e esse gosto nasceu a ouvir a espantosa musicalidade dos poemas ditos pelo Villaret. Tão espantosa, que eu acho que o Villaret algumas vezes sacrificava a inteligibilidade do texto apenas para ir atrás da música das palavras. O Cântico Negro é um clássico, é impossível pensar esse poema do Régio, ou a sua Toada de Portalegre, sem ouvir o Villaret. Ou o Menino de Sua Mãe, que foi o meu 'primeiro poema' do Pessoa. Ou O Caso do Vestido de Drummond (que já pus aqui). Ou um dos meus preferidos (que também já pus aqui), a Senhora de Brabante, de Gomes Leal.