May 6th, 2008

rosas

o acordo

Apesar de ser um tema que me interessa, não consigo ter uma opinião muito firme e definitiva acerca do acordo ortográfico. Acho que é uma daquelas questões em que todos têm uma quota parte de razão, e em que, no calor do debate, é muito fácil começar a forçar os argumentos e perder essa razão toda.

Digamos, para balizar a questão, que não me parece em absoluto necessário um acordo internacional que uniformize a grafia das palavras em português, embora me pareça fundamental que haja uma norma que consagre uma espécie de grafia padrão e eventuais variantes. Pode parecer a mesma coisa mas, pelo menos na minha ideia, não é. Um acordo ortográfico pretende, através do compromisso entre as partes acordantes, estabelecer em definitivo (enfim, enquanto dure, claro) uma determinada grafia que deverá ser adoptada por todos os que utilizam a língua escrita. Uma norma diz-me que podendo embora haver várias maneiras de grafar a palavra, há uma (ou duas ou três ou quantas forem) que do ponto de vista semântico ou gramatical ou etimológico é a mais adequada. Um pouco como os certificados de qualidade: eu posso fazer as coisas de diversas maneiras mas se isto tem um certificado de qualidade eu posso estar garantido que foi feito da maneira mais adequada.

Agrada-me a ideia de haver um livro qualquer (ou um site da net, vamos lá) que me diga como é que se deve grafar o superlativo absoluto sintético de bom, embora eu me queira reservar o direito de escrever óptimo ou ótimo conforme o uso do lugar onde estou ou conforme escrevem os escritores da minha terra.


Agora o que me irrita supinamente é o nacionalismo serôdio que vem agarrado à maior parte dos argumentos avançados contra o acordo ortográfico que foi estabelecido pelos países de língua oficial portuguesa, e em processo de ratificação por Portugal (razão de toda esta polémica, já que o texto inicial do acordo data de 1990), e que visa terminar com a dupla variante gráfica da língua portuguesa, a que é usada no Brasil e a que é usada nos restantes países. Incomoda-me que os portugueses guardem alguns tiques de superioridade em relação a todos aqueles povos cujas terras nós colonizámos, e que se julguem os donos da língua ou mesmo da cultura lusófona.

E incomoda-me porque de facto isso não traduz nenhum sentimento de superioridade, mas, ao invés, dá voz ao enorme complexo de inferioridade que os portugueses hoje sentem por terem sido tão importantes no mundo e hoje serem tão pouco determinantes. A verdade é que Portugal já foi dono do mundo (se é que de facto o foi alguma vez) mas não é capaz, hoje em dia e desde há muito tempo, de dar a volta a si próprio e assumir qualquer papel de liderança no concerto das nações. Nem na Europa nem fora dela. Não somos capazes de ser líderes, embora não o assumamos e estamos sempre a menosprezar os outros e a inventar desculpas para a nossa cepa torta.

E se já estamos mais ou menos conformados em ser o carro vassoura dos alemães ou dos franceses ou dos ingleses ou dos espanhóis (ui, o que isso nos doeu!, mas já nos habituámos) e qualquer dia dos polacos e dos húngaros também, a verdade é que nos custa muito aceitar sermos ultrapassados por todos esses povos a quem até há poucas décadas ou até há poucos séculos, tratávamos com o paternalismo autoritário e benevolente com que as patroas tratavam as criadas.

E o que nesta reacção ao acordo está em causa é que para muitos portugueses ele é a confirmação oficial de que o Brasil hoje em dia é um país incomparavelmente mais importante no xadrez do mundo do que o nosso Portugal. Ou melhor, o que está em causa é nós reconhecermos isso, é assumirmos que o Brasil já não é apenas um país mais importante e influente do que o nosso, mas até já nos lidera a nós! E de que já não servem as desculpas de que o Brasil tem muitas riquezas e recursos naturais, pois até na própria cultura, até na língua, esse património de Camões e de Pessoa, hoje em dia são os brasileiros que influem, que determinam, enfim que lideram.