May 5th, 2008

rosas

youth without youth

Youth Without Youth, o mais recente filme que Francis Coppola realizou depois de 10 anos sem filmar, é um filme complexo e nada fácil. Como é um filme que tem gerado polémica, e opiniões muito contraditórias, devo dizer que adorei o filme, apesar de o ter achado um pouco errático do ponto de vista narrativo. Mas é um filme belo e intrigante, com um certo sabor anacrónico, das coisas que já não há, que nunca recua perante o insólito das situações.
Em breves traços, conta a história de um linguista romeno, Dominic, que sacrificou a vida e o amor pela sua dedicação ao trabalho, e que, com 70 anos, se sente velho e desanimado com a certeza de que a obra da sua vida, a descoberta da linguagem primordial, nunca será acabada. No dia em que planeia suicidar-se, com estricnina, é atingido fulminantemente por um relâmpago, mas, em vez de morrer, começa a recuperar no hospital e inicia um processo de rejuvenescimento. A sua história torna-se conhecida na Europa da II Guerra Mundial e o nazis cobiçam-no para o estudarem, na sua desvairada tentativa de criarem o homem novo, o super-homem. Dominic refugia-se na Suiça neutral, onde passa a residir e onde, já depois da guerra, conhece Verónica, que é a re-figuração de Laura, o seu amor de juventude. Verónica é igualmente atingida por um raio que a faz regredir a reencarnações anteriores, permitindo-lhe falar linguagens antigas e, desse modo, auxiliar Dominic no seu trabalho de pesquisa histórica. O problema é que estas regressões lhe provocam um envelhecimento precoce.
É importante atentar na história que o filme conta para se tentar perceber, não só o que nela atraiu Coppola, mas também como o filme defende uma estranheza que chega a ser desconcertante, e que exige do espectador (pelo menos deste espectador) um pequeno esforço no sentido de aceitar a verdade da história que se conta.
O tom onírico do filme, com a multiplicidade de planos narrativos, aliado a uma certa melancolia centro-europeista, e a um irrecusável fascínio por uma cultura intelectual que aceitava a ciência como o grande desafio do homem moderno, tudo isso confere ao filme a irresistível aura de uma obra que é sempre maior do que aquilo que dela vamos conseguindo extrair.
Acresce que Coppola filma com mão de mestre, sacrificando muitas vezes a economia do filme em nome da perfeição do plano e da sequência. E, naquilo que é uma das suas marcas enquanto realizador norte-americano, procura sempre inscrever o filme numa matriz clássica do cinema de Hollywood ao mesmo tempo que não teme correr riscos.
É uma tentação achar que Youth Without Youth (título cheio de janelas e indícios que se perdem na tradução de Segunda Juventude) é mais um filme falhado, para mais tratando-se de uma obra de Francis Coppola, cujo essencial da filmografia se divide entre obras-primas absolutas e obras-primas fracassadas. Para mim trata-se de um dos mais belos e fascinantes filmes do ano.