May 4th, 2008

rosas

nação valente e... homofóbica?

O jornal Público divulgou hoje (3 de Maio) alguns resultados de um Inquérito Saúde e Sexualidade (2007), realizado pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, e segundo o qual cerca de 70% dos portugueses (o estudo foi feito com rigor e por isso a amostra é representativa) consideram erradas as relações sexuais entre adultos do mesmo sexo. Ou seja, os portugueses são aquilo que já se sabia que eram, homofóbicos. Entre as camadas mais jovens a percentagem desce para os 53%, ainda assim altíssima.
Não sei se a escala utilizada era a que fazia mais sentido (as relações entre pessoas do mesmo sexo são totalmente erradas, a maior parte das vezes erradas, algumas vezes erradas ou raramente erradas), por aplicar uma ideia de frequência a uma decisão que é substancialmente do plano da moral. Mas podemos dar isso de barato, pois estou convencido que com esta ou com outra escala, o resultado acabaria por ir bater no mesmo.
Confesso que fiquei um bocado perplexo com o resultado. Não que tenha ilusões e pense que vivemos numa sociedade mais tolerante do ponto de vista da moral sexual, mas porque aparentemente vive-se em Portugal um certo clima de descontracção religiosa e de progressismo das mentalidades. Pelos vistos, esse clima é mesmo só aparente.
Sempre fomos muito peritos na arte do parece bem, do social e politicamente correcto, das conveniências. E percebemos que fica bem ser-se moderno nas posições que tomamos, evitando desse modo o confronto com os outros e, pior, o seu juízo crítico. Sempre preferimos uma certa concórdia hipócrita e cobarde, à frontalidade e à violência do debate, sobretudo porque não sabemos o dia de amanhã e é sempre melhor estar de bem com deus e com o diabo. Não são os costumes que são brandos, mas a forma como os vivemos e evidenciamos.
De certo modo, o que o resultado deste inquérito mostra é que estamos na mesma. À socapa do anonimato revelamos o que de facto nos vai na alma. Por isso, além de perplexo fiquei triste, ou melhor desapontado.

Outro resultado interessante revelado é o de que apenas 0,7% dos inquiridos se coloca na categoria de homossexual, enquanto 3,2 afirmam já ter tido relações sexuais com pessoas do mesmo sexo, e 5% dizem já ter tido contactos com pessoas do mesmo sexo mas sem envolver a área genital. Se é verdade que este resultado nos indica que a questão identitária é sem dúvida a mais difícil de resolver numa sociedade muito determinada pelo juízo social, como a nossa, também nos confirma o que já tínhamos visto anteriormente, que convivemos com relativa facilidade com ambientes moral e socialmente hipócritas, onde apesar de tudo mais vale sê-lo do que parece-lo.