May 2nd, 2008

rosas

lusitania playboys

Tenho andado, nestas duas últimas semanas, verdadeiramente deliciado a ouvir Lusitânia Playboys, o mais recente cd dos Dead Combo. Não era um desafio fácil, pois os DC estavam a ficar com um som muito marcado, e muito fechado dentro de si próprio, que corria o risco de enquistar numa fórmula. A proposta foi apontar noutras direcções, juntar colaborações, incorporar mais referências musicais tradicionalmente portuguesas, e acentuar a versão cinematográfica de uma música que já tinha aquele toque de ser feita de bandas sonoras à espera de filmes por fazer.
O resultado é festivo, divertido e arriscado, sendo alguns dos maiores riscos, e os mais surpreendentes, os temas que precisamente mais nos entusiasmam. Para falar com franqueza, só acho que há dois pormenores menos conseguidos: um é o das sonoplastias, que, percebo, ajudam a caracterizar ambientes, mas têm de ser usado sempre com muita parcimónia; e o outro é o recurso, em duas ou três faixas, a um certo universo sonoro da banda desenhada, que eu acho que força a nota da referência cinematográfica.
Mas nada disto retira valor e sobretudo gozo ao cd. É interessante ver como um projecto que, tanto quanto julgo saber começou quase como uma brincadeira, como um projecto lateral, se tornou tão coerente e produtivo.
Na noite de quarta-feira os DC apresentaram um showcase na Fnac de Coimbra que foi interessante (apesar de eu só ter ouvido, era tanta gente que não dava sequer para entrar no espaço do café) porque mostrou como esta proposta de temas mais 'arranjados' se mantém extremamente fiel à essência da música dos DC, e os temas, despidos à formação do duo, são tão bonitos e entusiasmantes como no disco.
A edição que eu comprei do cd traz de bónus um dvd com um documentário tipo making of, um concerto no Maxims e vários clips. Não sou grande entusiasta desta moda de os cds trazerem agarrada muito bugiganga que serve só para agitar o marketing, mas reconheço que este conjunto de extras é perfeito e, mais do que uma técnica de vendas, parece mesmo resultar de uma vontade de dar uma prendinha aos fãs da banda.
rosas

um ano depois

Faz hoje um ano que mudei de trabalho. Ou melhor, que mudei de local de trabalho pois o trabalho, ou seja a carreira profissional, continua a mesma. Durante dezasseis anos, entre Fevereiro de 1991 e Abril de 2007 trabalhei sempre na mesma instituição. Ao longo desses anos tive uma série de funções, algumas de muita responsabilidade, outras ainda mais, estive na prateleira, apaguei fogos, em sentido figurado mas também em sentido literal. Conhecia a organização como as palmas das minhas mãos, quase pessoa a pessoa, e eram mais de duas mil e quinhentas. Sentia-me, para o melhor e para o pior, parte da mobília. Apesar de ser uma daquelas pessoas que tem de tomar decisões, e por isso tem de dizer muitas vezes que não, acho que havia relativamente poucas pessoas que não gostavam de mim, e mesmo a maior parte dessas era um pouco por interposta pessoa, não gostavam de mim apenas porque não gostavam de outras pessoas que eram minhas amigas ou com quem eu estava de algum modo relacionado. E havia muitas pessoas, nomeadamente aquelas que tinham funções menos diferenciadas e por isso menor poder de se imporem, que confiavam em mim e sabiam que eu as apoiava e ajudava.

Ao fim de dezasseis anos, aquela era a minha casa e pelo menos até às vésperas de sair (mais ou menos até um mês antes) nunca me passou pela cabeça sair. Até que um dia vi passar à minha porta uma oportunidade, parou um bocadinho, ficou ali a irradiar e eu a olhar para ela, e, ao fim de quatro ou cinco dias a pensar no assunto, percebi que era uma oportunidade demasiado perfeita para não aproveitar. Ouvi a opinião de duas pessoas (ouvi de mais mas essas duas eram as importantes), e que, já agora, não foram coincidentes, e falei com o que seria o meu chefe, e que me incitou a mudar. Entre uma sexta-feira e uma segunda, decidi-me, e mudei-me.

E devo dizer que um ano depois, não só não estou arrependido, como não houve um único momento de arrependimento, e, mais, a minha mudança faz cada vez mais sentido. Ao longo deste ano experimentei a sensação que nunca tinha sentido anteriormente de estarmos novos numa coisa, de olharmos para uma organização com olhos frescos, de irmos conhecendo as pessoas e criando empatias (e naturalmente algumas antipatiazinhas). E sobretudo aprendi novas maneiras de estar na profissão, e readquiri o gosto, que tinha sido perdido nos três ou quatro anos anteriores, de trabalhar em equipa. Tem sido, por tudo isto, uma experiência muito boa. Inclusivamente a nível pessoal, porque me obrigou a confrontar-me com fantasmas antigos, nomeadamente com a doença que tive há mais de vinte anos e que, por força de circunstâncias que não vêem ao caso, voltou a ser um assunto; e até com certos medos e inseguranças, pois não há nada como expormo-nos ao olhar limpo dos outros para pôr à prova a nossa auto-confiança.

Quanto à minha antiga instituição, guardo dela uma mão cheia de amigos, que continuam presentes de modo quase quotidiano, e outra de saudades de algumas pessoas em relação às quais a amizade não resistiu à distância mas de quem guardo muito boas recordações. Tenho saudades de atravessar todos os dias o jardim, que era lindíssimo, e que sempre me animava e me tornava a alma leve e fresca e perfumada. Dificilmente outras coisas na vida terão a faculdade de me inebriar e me despertar os sentidos e a mente (e de me inspirar entradas para o innersmile) como esses passeios quotidianos pelo jardim, ou até mesmo simplesmente o mar verde da copa das árvores entrevisto por alguma janela.

Quanto ao resto, a verdade é que a organização tinha entrado num processo de degradação que ao longo do último ano se acentuou. Aliás, uma das coisas de que tomei consciência depois de ter saído é que a minha saída fez parte desse processo de degradação. Eu conhecia tão bem aquela casa que lhe adivinhei o futuro, e tudo aquilo que eu pensei, e comentei com amigos, que se ia passar, tem de facto acontecido. Desse modo já não me revejo no que aquela instituição é actualmente, e tenho um profundo sentido de perda em relação ao que aquela casa já foi, e ao orgulho que os profissionais sentiam em lá trabalhar. E sinto mesmo um certo desprezo em relação a quem dirige neste momento o seu destino, mesmo em relação às pessoas com quem trabalhei muitas vezes e ao longo de muito tempo, não por me sentir superior a elas, mas porque não tenho rigorosamente nada a ver com a sua maneira de estar nas coisas e com aquilo em que transformaram a que foi a minha casa durante dezasseis anos.