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o mayor de londres
rosas
innersmile
Na próxima quinta-feira, dia 1 de Maio, há eleições em Londres para escolha do mayor da cidade. Quando comecei a ir a Londres, em 1984, não havia a figura do mayor. Na altura, a estrutura de governo da cidade dividia-se pelos diversos 'councils' que eram as formas de governo dos borroughs (os bairros administrativos de Londres, o meu era o de Camden). E havia o GLC, o Great London Council, que reunia representantes dos councils e que era a autoridade coordenadora da gestão da cidade.

Nessa época, Margarete Thatcher governava a Grã-Bretanha com a proverbial mão de ferro, e o GLC era o único verdadeiro pólo de oposição aos conservadores, sobretudo desde que à sua frente estava o Ken Livingstone, conhecido pelo Red Ken, o que dá uma ideia da ferocidade da oposição. Thatcher, como é óbvio, decidiu resolver o problema à sua maneira, e em 1986 aboliu o GLC, numa das suas medidas mais contestadas. Ainda tenho em casa os crachás a dizer Keep the GLC working for London.

Quando Blair chegou a governo cumpriu uma das suas principais promessas eleitorais, a de restaurar uma autoridade metropolitana na zona de Londres, com a criação da figura do mayor e a reposição de um órgão colegial com funções de coordenação e representatividade. O Partido Trabalhista não escolheu o Red Ken para candidato a mayor nas primeiras eleições de 2000, que se apresentou como candidato independente e infringiu uma derrota expressiva ao candidato oficial do partido, tornando-se o primeiro (e até agora único) mayor de Londres. Nas eleições de 2004, e com receio de nova derrota, o Labour readmitiu Ken Livingstone (tinha sido expulso depois da decisão de concorrer como independente) e apoiou a sua reeleição.

Mais não seja em homenagem aos gloriosos anos de oposição a Thatcher, sempre gostei muito do Ken Livingstone, e fiquei todo contente quando ele ganhou a eleição de 2000. Não porque não gostasse do Tony Blair (acho que foi um dos melhores primeiros-ministros que o Reino Unido conheceu), mas porque o Red Ken era a escolha natural do partido, e só não o foi numa daquelas manobras de baixa política para tentar anular a oposição interna.

Nestas eleições da próxima quinta-feira, o Red Ken é mais uma vez o candidato Labour, contra o conservador o Boris Johnson, e o candidato dos Liberais-Democratas (os Lib-Dems), o Brian Paddick.

Paddick foi até há pouco tempo oficial superior de polícia, numa carreira quase toda feita na Metropolitan Police (uma espécie de PSP londrina), mas com passagens pela Scotland Yard. Na Metropolitan Police destacou-se por ter sido o oficial de patente mais elevada a assumir abertamente a sua homossexualidade. A sua reforma da polícia surgiu no seguimento de um conflito entre Paddick e os seus superiores relacionado com a morte do cidadão brasileiro Jean Charles de Menezes, no seguimento dos ataques bombistas de Julho de 2007. Em entrevistas que concedeu, Paddick deixou subentendido que os seus superiores, nomeadamente Ian Blair, o chefe máximo, souberam que Jean Charles tinha sido morto por engano logo nas horas seguintes ao tiroteio, ou seja muito antes de a polícia ter admitido publicamente o engano. Ora como se sabe, nos países civilizados o pior crime que as autoridades públicas podem cometer é serem apanhadas a mentir (ok, mentir é mau, mas um tipo pode-se safar com uma mentira se não for apanhado), ao contrário do que acontece noutros países em que mentir de certo modo faz parte do MO das pessoas que se dedicam ao serviço público. Seja como for, essa insinuação bem como a afirmação de que Sir Ian Blair se devia ter demitido por responsabilidade política pela morte de Jean Charles, fizerem-no entrar em choque com a hierarquia da polícia, tendo a sua aposentação sido uma das formas de resolver politicamente o problema.

Apesar de não engraçar muito com o Brian Paddick, agrada-me muito a ideia de o mayor de uma das maiores e mais importantes cidades do mundo (e para mais uma que eu amo muito) ser gay, e por isso se eu fosse um londrino na próxima quinta-feira votaria nos Liberal-Democrats, apesar de na política inglesa a minha simpatia ir geralmente para os Labours. Mas desta vez eu teria de concordar com o Boris Johnson que apelidou o Red Ken de Ken Leaving Soon!