April 21st, 2008

rosas

noite de chuva

NOITE DE CHUVA

Ontem fiz uma coisa que não fazia há muito tempo: vinha pela auto-estrada e, depois dos primeiros quilómetros a rolar a uma velocidade mais calma, comecei a acelerar e fiz a maior parte da viagem sempre com o ponteiro do conta-quilómetros a passar dos cento e setenta. Houve uma altura, há muitos anos, em que isso era habitual. Era mais jovem, mais impaciente, tinha mais resistência à fadiga, e sobretudo tinha um carro mais veloz do que o que tenho agora.
Sensivelmente a meio caminho reparei que no meio das luzes distantes de uma povoação qualquer brilhava uma estrela azul. Tinha acabado de cair mais uma enxurrada de água, o pára-brisas ainda estava cheio de gotas de chuva, e, com a atenção toda concentrada na estrada à minha frente, sobretudo àquela velocidade, não consegui, a princípio, perceber bem do que se tratava. Parecia-me efectivamente uma estrela.
A noite é propícia a devaneios e a acontecimentos extraordinários, e nem sei muito bem qual dos dois me aconteceu, ou mesmo se ambos. Mas à medida que fui avançando, a estrela afinal parecia brilhar, azul e intensa como uma cruz na noite, mesmo no meio da auto-estrada. Abrandei, confuso, a velocidade, e achei estranho não haver outros carros a ultrapassarem-me ou a cruzarem na direcção oposta.
Um dia, há já algum tempo, mais ou menos na mesma zona da auto-estrada, atravessei um arco-íris exactamente no ponto onde, junto ao asfalto, ele se começava a formar. Por uma brevíssima fracção de tempo, senti-me embrenhado numa luz diferente, brilhante, como se estivesse no foco iluminado de uma máquina de projectar filmes. Foi uma experiência muito breve, mas tão extraordinária e intensa que ainda hoje sou capaz de imaginar à minha volta essa luz formidável. Lembrei-me deste episódio porque foi quase a mesma coisa que me aconteceu quando me aproximei da luz azul da estrela que brilhava na auto-estrada. Com a diferença de que, ontem à noite, e quando me preparava, quase em êxtase, para mergulhar nessa luz, ela foi-se tornando mais e mais diáfana, de modo que, no momento em que o carro, que seguia já a uma velocidade mínima, muito abaixo do limite de circulação permitido, se preparava para a atravessar, já nada restava do seu brilho, nem sequer o filamento ainda incandescente de uma lâmpada que acabámos de apagar.

Ainda com o sabor árido e amargo das coisas que terminam antes de começarem, fui de novo carregando no acelerador até o carro atingir de novo os cento e setenta quilómetros por hora. Começaram a surgir outros carros, mais lentos, à minha frente, e pares de luzes a cruzar a estrada no sentido oposto.
Veio-me à lembrança uma noite em que fui jantar com um grupo de pessoas que não conhecia pessoalmente, de algumas apenas a voz, através de conversas telefónicas. Ganhei, desse jantar de estranhos, a certeza e o conforto de umas quantas amizades para a vida, e a doce frescura de outras tantas que a vida se foi encarregando de dissipar.
E assim prossegui viagem, com a tranquila esperança de que há sempre pessoas e sentimentos que se salvam dos destroços, de que, mesmo em noite de borrasca, há sempre curvas inesperadas e insuspeitos encontros no bisonho enlevo de uma auto-estrada nocturna. Com o pé sempre a pressionar o pedal do acelerador, fiz mentalmente as contas de quanto tempo faltava para chegar ao aconchego da minha casa.



[Este conto vai, naturalmente, para o pessoal do Sábado à noite. Cheers]