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tennessee williams, autobiografia
rosas
innersmile


São quase três centenas de páginas de uma letra miudinha, uma mancha de texto cerrada e em inglês. O que quer dizer que já estou a ler o livro há duas semanas e parece-me que vou continuar mais algumas. Mas tem sido deliciosa a leitura de Memoirs, a autobiografia de Tennessee Williams, o autor de peças de teatro tão conhecidas como Streetcar Named Desire, The Glass Menagerie ou Cat on a Hot Tin Roof.
Trata-se, como o título indica, de uma autobiografia escrita ao sabor da memória, seguindo um fio condutor cronológico mas cheia de derivas e dispersões, avanços e recuos no tempo, constantes chamadas à actualidade do escritor enquanto a escrevia. Trata-se, além disso, de um texto que recusa assumidamente a objectividade narrativa, em que predomina o discurso directo, muitas vezes acompanhando a própria corrente de pensamento do autor. Tudo isto torna o livro fascinante, pois o que se perde em objectividade por força de uma memória que é, voluntária e involuntariamente, selectiva, ganha-se numa aproximação, num insert, à alma e ao psiquismo do escritor, às suas emoções e sentimentos, às suas alegrias e aos seus dramas profundos, e sobretudo a um sentido de humor terno e irónico que nunca se poupa a si próprio. E que é escrito no estilo lírico e leve do escritor, num texto de fácil leitura mas com uma profundidade capaz de captar o essencial da alma humana, quer na sua faceta mais prazenteira quer nos abismos mais atormentados.
Quando foi publicado pela primeira vez, em 1975, o livro suscitou enorme polémica, sendo alvo de intensa crítica e mesmo reprovação, sobretudo pela crueza e naturalidade com que Williams se refere às suas aventuras amorosas, ele que era um homossexual convicto e bastante praticante. Trinta anos depois, a sociedade já deu muita volta, e, apesar de serem muito interessantes, as façanhas sexuais de TW, creio eu, já não chocarão ninguém. Entre outras coisas, nomeadamente os seus encontros com pessoas célebres, as suas deambulações pelos lugares da sua predilecção (Nova Iorque, Nova Orleans e Key West), e acompanhamento da sua carreira de dramaturgo (de um dos maiores dramaturgos da América), o que mais realça esta autobiografia é o enorme compromisso de Williams com a escrita, uma disciplina obsessiva que o levava a, mesmo depois das noitadas mais extravagantes, levantar-se todos os dias (todos os dias!) cedíssimo, engolir enormes chávenas de café, e passar todas as horas do dia a escrever, alternando a escrita dos textos teatrais com contos, romances e poemas.

Tennessee Williams é um dos maus autores preferidos, e que conheci justamente através de algumas das melhores adaptações para cinema das suas peças mais conhecidas. Aí por princípios dos anos 90, li de uma assentada, em compactas edições inglesas compradas nas edições do FITEI, o essencial das suas peças escritas nos anos 40 e 50. E tive a sorte de ter visto algumas produções de peças de teatro suas, nomeadamente de The Glass Menagerie, por uma companhia de teatro universitário nos Estados Unidos, Sweet Bird of Youth, numa produção do National Theatre, em Londres, e, em Lisboa, com encenação do La Féria, Rosa Tatuada. Uma das coisas que me atraiu nas obras de Williams foi o facto delas terem sempre uma sexualidade muito intensa, muitas vezes de carácter homossexual, mais ou menos implícito, e numa época em que a sexualidade ainda era um tema socialmente incorrecto, quando não mesmo um fortíssimo tabu moral e religioso. A outra, e aquilo que mais me atrai hoje em dia na obra de Tennessee Williams, são as suas personagens de uma fragilidade comovente e quase impossível, animais belíssimos mas irremediavelmente feridos de morte, vidas queimadas por uma solidão cáustica e irreparável.