?

Log in

No account? Create an account

roriz: paraíso e biografia
rosas
innersmile
Fui ontem ao Teatro Aveirense ver Paraíso, mais um espectáculo da Companhia Olga Roriz. O programa da peça pretende ser um tributo e uma sátira ao musical de raiz norte-americano, o teatro musical da Broadway, e surgiu, como explicou a encenadora numa conversa pública no final do espectáculo, como uma reacção aos espectáculos musicais que se fazem em Portugal, em resposta à questão de como seria um musical-olga-roriz.
Paraíso acentua a tendência recente das produções de OR, e da sua companhia, de uma certa fragmentação, acentuada neste caso pelo tipo de selecção musical, canções de cariz popular evocativas de uma certa nostalgia, e pelo facto de os bailarinos não se limitarem a dançar, mas ensaiarem eles próprios a interpretação de algumas canções ou mesmo de outros números de palco, mais ou menos associados à ideia do espectáculo musical.
A peça parece nascer assim de uma confluência entre as canções escolhidas, ou aquilo que essas canções apelavam ao impulso criador da autora, certas ideias ou mesmo apontamentos de movimento ou de pura encenação que OR pretendia ensaiar, e a reacção dos bailarinos, em exercícios de improvisação, às propostas que lhes são apresentadas, contribuindo com os seus talentos extra-dança.
Se virmos bem, no entanto, nada disto é muito diferente da ideia que temos do sistema teatral de Olga Roriz, só parece aqui acentuada por esse carácter mais fragmentado de Paraíso.
Por outro lado não me parece, ao contrário do que fui lendo por aí, que Paraíso é mais dominado pelo signo de Pina Baush do que peças anteriores. Bausch é, reconhecida e assumidamente, uma influência de Olga Roriz. A vantagem de assumirmos as nossas influências é que, só pelo simples facto de o fazermos, já nos estamos a libertar delas, e sempre me pareceu que é isso que acontece neste caso. Mais do que uma influência, o sentido de teatralidade é uma marca do trabalho de Olga Roriz, e a meu ver das mais entusiasmantes, como fica mais uma vez patente em Paraíso, mesmo que com um recurso cénico quase reduzido ao mínimo.
Como também sempre acontece nas peças de Olga Roriz, todo o destaque é dado aos bailarinos. Como qualquer grande encenador, o seu mérito é também esse de devolver aos bailarinos toda a energia que anima o espectáculo, como se apenas eles existissem (e apenas eles existem) durante o tempo da performance. Mas é impossível não destacar a participação de Pedro Santiago Cal em pelo menos três dimensões. Primeiro, pela sua participação como uma espécie de aderecista de serviço, que empresta à peça uma leitura subtil e irónica. Depois, num número com um bengaleiro - varão de pista de strip-tease, que é dos mais conseguidos da peça, nomeadamente na citação a um número famoso de Fred Astaire. Finalmente na sua interpretação das Cantigas de Maio, de José Afonso, sobretudo no intermezzo de dança que pontua essa interpretação, e que, condensado na sua brevidade, constitui um catálogo eloquente de uma linguagem da dança contemporânea.
Uma linguagem que privilegia e explora o movimento, mais do que o gesto ou o passo, e que poucas vezes tínhamos visto tão intensamente trabalhado nas peças de Olga Roriz, como neste Paraíso. Quase que me atreveria a dizer que é nesta dimensão do movimento, da sua obsessão e do seu fascínio, que reside a razão de ser deste tributo e desta sátira ao chamado teatro musical.

Aproveito para salientar que já foi editado (Assírio & Alvim) o livro escrito pela jornalista Mónica Guerreiro dedicado a Olga Roriz, e ao seu trabalho como criadora e coreógrafa. Trata-se, digamos assim, de uma biografia artística, mais do que um simples relato de vida. Publicado em formato de álbum, pareceu-me, numa leitura rápida, que daí resulta uma das dificuldades do livro, a contradição entre uma mancha gráfica muito dominada pela imagem e muito apelativa, e um texto que pretende ser lido com o fôlego do ensaio sobre uma obra. Pelo menos foi essa a dificuldade que eu senti, a da imagem me estar sempre a distrair do sentido do texto. E essa contradição parece ser agravada pelo facto de o livro ser um pouco deficitário em matéria documental e iconográfica, para além, obviamente, dos riquíssimos registos fotográficos.
Seja como for, é um livro indispensável a vários títulos. Porque a dimensão do trabalho de Olga Roriz exige atenção e estudo, porque a autora do livro domina a matéria e imprime sentido ao texto (o que lhe dá o tal fôlego ensaístico), e porque o livro cumpre a função de registo de uma carreira importante. Para além dessa imprescindibilidade, é um livro fundamental para todos os admiradores do trabalho de Olga Roriz, porque lhes ensina coisas e lhes abre perspectivas e leituras.