April 8th, 2008

rosas

calcanhotto

Tenho estado a ouvir muito Maré, o último cd da Adriana Calcanhotto. Sou grande fã da Adriana desde um dia (ok, uma noite) em que ela veio dar um concerto gratuito em Coimbra, e a que eu só fui pela companhia, pois nunca tinha ouvido falar nela. E foi um coup de foudre, fiquei apaixonadíssimo pelo talento particular que a Adriana tem em construir canções que são simultaneamente inteligentes e emocionais, cerebrais e líricas. Claro que no seguimento deste concerto (e desde aí já assisti a pelo menos mais um dela) tenho comprado todos os seus discos, e há canções e versos da Adriana que estão sempre presentes, e nos ajudam a perspectivar as coisas. Dizer «eu ando pelo mundo prestando atenção em cores que não sei o nome» não é simplesmente cantarolar uma canção da Adriana, é muito mais, é afirmar um maneira de estar (ou de gostar de estar) no mundo e na vida, é dar nome a sentimentos que temos e que não conseguimos definir.

Agora, depois de muitos anos sem novas canções, Adriana Calcanhotto lançou Maré, um disco pequeno e simples, quase leve, que seria etéreo se não fosse marítimo, mas que, como os licores ou as essências, se apresenta como uma depuração. São onze canções, todas relacionadas com o mar (Adriana afirma que este é o segundo trabalho de uma trilogia começada com Maritmo, um disco de 1998), com produção de Arto Lindsay (que, a propósito, também já vi actuar ao vivo em Coimbra), e o suporte instrumental dos músicos do projecto +2 (com quem Adriana fez a digressão +Ela) para além de colaborações prestimosas como as de Marisa Monte ou Gilberto Gil.

Vale a pena dar uma espreitadela ao site de Adriana Calcanhotto (em http://www.adrianacalcanhotto.com/), apesar do site ainda estar em construção, sobretudo para ler a espécie de blog que está no link ‘Pelos Mares’. Já agora, pela agenda ficamos a saber que a Asdriana vai estar em Portugal em Maio para uma série de concertos em Lisboa, Porto, Torres Novas, Guimarães e Ponta Delgada.
rosas

vietname 08.5

25.3.08

Dia longo. Logo de manhã fomos a Danang visitar o museu da cultura Champa, uma civilização hindu que viveu na zona central do que é hoje o Vietname, e que durou mais de 10 séculos. O museu está cheio de figuras de divindades hinduístas, de Shivas e Ganeshas.
Depois fomos visitar as montanhas de mármore, ou melhor, os templos que se encontram espalhados ao longo de um dos montes que ladeiam a cidade.
À tarde visitámos a cidade velha de Hoi An, um emaranhado de ruas estreitas com inúmeras casas de tradicionais famílias chinesas, que se podem visitar, de templos e pagodes, de restaurantes e pequenas casas de comércio, mais típicas umas poucas, a maior parte dedicadas ao comércio para turistas.
Já quase no fim do passeio, fui assediado por três raparigas dentro de uma barbearia para entrar e fazer a barba, pelo proverbial preço de ‘un dolár’. Claro que fui. Fez-me a barba, aparou-me a perinha no queixo, e ainda tive direito a massagem facial e tudo. E no fim as três deram-me abraços, e apalparam-me os braços e barriga. Claro que paguei mais do que o combinado, um dólar para cada uma das empregadas, a que me fez a barba e a outra, e dois euros para a patroa. Deu-me um gozo imenso. Só me fez um bocado de impressão a toalha com que ela me limpou o rosto, que tinha um ar bastante encardido, de já ter limpo o trombil a muito marmanjo, e não todos tão lavadinhos como eu.

Na estrada entre Danang e Hoi An passa-se pelo lugar de uma antiga base aérea norte-americana. Ainda se vêm alguns edifícios e os hangares dos aviões, com os seus tectos redondos. Do outro lado da estrada ficava a famosa, e infame, China Beach, onde as tropas norte-americanas tinham direito a descanso e diversão. Depois de muitos anos de desuso, a denominação foi recuperada, para aumentar a ressonância turística. Esta base foi muito importante durante a guerra, por ser a partir daqui que, sobretudo com meios aéreos, se fazia a guerra na antiga zona desmilitarizada.
De repente, no meio de um excursão turística, intromete-se a triste impressão de estarmos a cruzar um lugar que foi palco e origem de muito sofrimento, onde o horror atingiu a raia da loucura, e onde o absurdo torna o pesadelo ainda mais horrífico.
O que me levou a pensar que este passeio ao Vietname é também um confronto com um dos acontecimentos mais marcantes da minha juventude, e é um pouco estranho estar a passar por aqui, quase como se fosse um encontro com uma daquelas coisas que fazem parte de nós, do nosso quadro de referências geracionais e culturais, inclusivamente de uma determinada estrutura mental. Não sei se me consigo explicar bem, mas trata-se de um contacto directo com qualquer coisa que foi de facto muito importante na minha formação (até pelo referente que este conflito teve em relação à chamada colonial), mas que até aqui permanecia um abstracção. Agora tem um rosto, digamos assim. É o rosto destas pessoas com quem me cruzo, sendo que as mais velhas, as da minha idade pelo menos, têm memória vivencial de um dos conflitos mais perturbadores do nosso tempo. E no entanto passeamo-nos pelo Vietname e nada nos diz que este foi o lugar do pesadelo. Como se o pesadelo não tivesse existido, e há tão pouco tempo. Quer dizer, até ao momento em que passamos, distraídos e levemente ensonados, a bordo de um autocarro de turismo, e avistamos, por detrás dos muros, os edifícios das antigas guaritas e o tecto curvo dos hangares.