March 17th, 2008

rosas

bom-crioulo


Falta-me um capítulo, meia dúzia de páginas, para terminar a leitura de Bom-Crioulo, do brasileiro Adolfo Caminha, um romance breve que passa por ser o primeiro exemplar de literatura homoerótica escrito em português. Escrito em 1895, o livro foi proscrito e alvo de tentativas de proibição, até ser objecto de interesse por parte dos estudos literários queer norte-americanos, sendo então recuperado como um clássico da literatura brasileira, nomeadamente no âmbito da corrente literária, o naturalismo, em que se insere. Curiosa e significativamente, esta é a primeira edição portuguesa do livro, ou seja, mais de 100 anos depois da edição original.

A minha primeira reacção perante o livro é de espanto, sobretudo pela sua modernidade. Se bem que o romance se situe num quadro mental e cultural que naturalmente não é o actual (se bem que, pelo menos no plano das mentalidades, por vezes decorre da leitura do livro que ainda estamos em finais do século dezanove!), o facto é que a carga erótica que emana do livro e a pulsão do desejo homossexual nele inscrita, são de uma modernidade absoluta, lendo-se o livro praticamente como se se tratasse de um contemporâneo. E como se fosse pouco, à relação amorosa de natureza homossexual acresce ainda outro interdito, o de os protagonistas serem de raças diferentes, um efebo branco e louro e um negro maduro e hercúleo. E se acrescentarmos ainda que se trata de um grumete e de um marinheiro, e que todo o romance decorre em ambiente de marinhagem, então estão reunidos vários dos condimentos de clássicos do homoerotismo.
Mas para além desta, o livro encena ainda uma outra relação erótica, esta de carácter heterossexual, ainda marcada pela diferença de idades, e por uma certa inversão do paradigma social, em que uma mulher mais velha, se não uma prostituta pelo menos alguém que aceita trocar favores sexuais por uma compensação material, se apaixona lascivamente por um adolescente a fazer-se homem.
E todas as passagens onde o sexo aparece, e não são poucas, são muito carregadas e intensas, em que a subtileza da linguagem e o pudor das descrições não deixam espaço, no entanto, para qualquer ambiguidade ou subterfúgio. Sem nunca ser grosseiro (diríamos, pornográfico), o autor mais do que uma vez atravessa a linha que separa o implícito do explicito.

Sendo, na minha opinião, essa carga sexual o que mais notabiliza o livro de Adolfo Caminha, é óbvio que ele não se esgota nesse plano, e para além do romanesco triângulo amoroso em que o grumete Aleixo é alvo da febre amorosa do antigo escravo Amaro e dos fervores palpitantes da portuguesa D. Carolina, Bom-Crioulo é ainda um interessante fresco da vida no Rio de Janeiro no final do século XIX e, até, ainda que num sentido não muito ortodoxo, um romance de marinhagem.

Uma nota curiosa. Quando andava na net à procura de uma imagem da capa do livro, deparei-me com inúmeros exemplares das capas de várias edições brasileiras do livro. E a curiosidade está no facto de haver capas para todos os gostos, desde as mais sóbrias, correspondendo concerteza a edições mais sérias e literárias (ou literatas) do livro, como de resto é a edição nacional, até àquelas (mais numerosas) em que a imagem da capa apela sobretudo para o registo homoerótico da obra num quadro de referência a fantasias clássicas do erotismo homossexual.
Ora, nem todos os livros se podem gabar de cobrir um espectro assim tão alargado de interesses, que vai do academismo mais árido dos ensaios literários às noites de leitura mais assombrosas e incendiadas. Mais do que uma pena, será quase um crime que um livro tão extraordinário, escrito na nossa língua e finalmente publicado em Portugal, fique a ganhar o pó das estantes das livrarias em vez de atear chamas nas mãos que o folheiem.