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Guess Who’s Coming to Dinner (Adivinha Quem Vem Para Jantar) foi um filme polémico no final dos anos 60 (o ano de produção é 1967, o ano anterior ao do assassinato de Martin Luther King) porque colocava uma questão de forma particular: e se, depois do movimento dos direitos civis americano que pôs termo à discriminação racial nos EUA, uma rapariga branca e um rapaz negro decidissem casar, como seria? Para tornar a questão ainda mais cruel, o filme acrescenta pormenores importantes: a rapariga é filha de um casal de ideias liberais, o pai um jornalista empenhado e a mãe uma galerista de arte, o rapaz é um médico com uma carreira ascendente na organização mundial de saúde. Ou seja, não há desculpas ou pretextos para outras questões que não seja a diferença da cor da pele.
O filme foi realizado por Stanley Kramer, um cineasta com preocupação por temas sérios, de cariz social, e tem três estrelas da maior grandeza: Sidney Poitier, o primeiro negro a conseguir o estatuto de estrela na indústria cinematográfica norte-americana, e dois gigantes absolutos do cinema americano, Katharine Hepburn e Spencer Tracy.
O filme seria o último de Tracy, que o rodou em precárias condições de saúde, e que acabaria por falecer escassas semanas após o termo da rodagem, e de alguma forma é marcado por esse evento. Quarenta anos após a sua estreia, e quando a questão rácica está muito longe de se considerar resolvida (em determinados contextos e latitudes ela é ainda mais complexa e destrutiva, e absurda, do que o era nos anos 60), dificilmente o filme conseguiria hoje em dia despertar a polémica que suscitou aquando da estreia. Não porque, como referi, o problema tenha sido resolvido, mas porque a forma como o filme o coloca é, digamos assim, demasiado branda para os tempos que correm.
O que fica sobretudo do filme é precisamente o facto de ser a derradeira vez que Tracy e Hepburn aparecem juntos no cinema, e como esse facto está tão presente no filme. Por exemplo na forma como Hepburn quase se anula e reduz o seu ‘acting’ a um mínimo indispensável sempre que contracena com Spencer. Mesmo quando discutem, Kate é sempre complacente, como se quisesse poupar Spencer ao esforço da contracena.
Mas presente, sobretudo, na sequência final, em que Spencer Tracy tem um monólogo que, do ponto de vista narrativo, constitui a resolução do filme, e do problema enunciado. Nesse monólogo, a personagem de Tracy explicita as dificuldades que aquele relacionamento levanta e justifica os diferentes pontos de vista, os que são a favor e os que são contra o casamento. Em termos esquemáticos, os homens, os pais de família, os que representam a ponderação e a racionalidade, estão contra, e as duas mães são a favor, porque defendem o primado do sentimento. A dado ponto, refere a acusação que a mãe de Poitier dirige a si, Spencer, e ao pai de Poitier, de que estão contra o casamento apenas porque são duas carcaças velhas que já se esqueceram de como é amar alguém. Segue-se um plano fabuloso em que Spencer Tracy está em primeiro plano, de perfil, nítido, e Kate Hepburn em fundo, sentada num braço do sofá, de frente para a câmara, ligeiramente desfocada. E Spencer diz uma das frases mais bonitas e comoventes que já se escreveram em cinema, ao mesmo tempo que em fundo os olhos de Kate se vão enchendo do brilho das lágrimas. É impossível não acreditar que quem está assim a falar é mesmo Spencer Tracy, o actor, e não Matt Drayton a personagem, tal como é impossível não acreditar que os olhos que se enchem de lágrimas lá ao fundo são mesmo os de Katharine Hepburn, a mulher que o amava.
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